quinta-feira, 17 de outubro de 2013

NATURISMO NO TERRITÓRIO DAS EMOÇÕES

Após o II ENNN Encontro Norte Nordeste de Naturismo que durou quatro dias, tendo como lema “Espiritualidade, Solidariedade e Compromisso”; e em torno disso muitas atividades que considero importantes de serem mencionadas nesse texto.

Necessário esclarecer que “Espiritualidade” não tem nada a ver com religião, crenças, Deus, Santos ou Profetas. Espiritualidade é um caso de amor maior do indivíduo em relação ao cosmos. Você toca na folha estará ao mesmo tempo tocando nas estrelas, é a universalidade sem fragmentos, é sentir o pulsar da vida em todas as direções, não há norte nem sul, não há fronteiras. No dia em que a espiritualidade tocar o homem não poderão existir guerras, violência, afrontas, porque o outro será um espelho que reflete ele mesmo.
 
Diariamente tínhamos um momento para reflexão dos elementos da natureza, fogo, terra, água e ar. No primeiro dia, uma fogueira foi acesa e a Rayssa fez abertura do evento de forma brilhante, louvando o “fogo” que em nosso corpo representa o coração, símbolo da paixão, do amor e da energia que nos faz movimentar. Todos os participantes mentalizaram o que deveria colocar para o universo, seus pedidos, anseios, desejos e provavelmente orações. Mas tudo de forma silenciosa em respeito às crenças individuais, que é um dos preceitos do Naturismo.

No segundo dia “a terra” com representação artística do amigo Jorge Bandeira, que deitou o seu corpo na terra molhada pela chuva que não dava trégua, mas foi bom que tenha sido assim em reconhecimento da nossa adaptação à natureza, não ao contrário. Antes da sua exposição, Jorge pede que tenhamos em mente as crianças ali presentes e o amigo Miguel que luta contra o câncer e sempre esteve em defesa do Naturismo na praia de Massarandupió. Deita numa posição fetal e os participantes colocam um punhado de terra sobre o seu corpo, e nada mais foi dito. Percebem a significância? É o encontro da vida e da morte, é a vida se manifestando da terra, vivida por uma criança que hoje luta e o seu final, coberta de onde surgiu. É o encontro dos opostos, é a vida que morre ou surge? É seu início ou fim? É a igualdade de todos os seres que vivem, é o direito de viver com dignidade. Não contive tamanha emoção e meus olhos lacrimejaram.

No terceiro dia, “a água” foi o terceiro elemento, exaltada a sua importância para a manifestação da vida, circulante em todo nosso organismo, além de nascermos por meio desse elemento. Todos passaram por uma fonte de água e ali se banharam. À noite foi o lançamento do livro “Naturismo – Um Corpo Não Fragmentado” em que tive a oportunidade de realizar uma breve apresentação, sem muita delonga por ver o cansaço de muitos que já tinham ido à praia, passado o dia em reuniões. Percebi a inconveniência de realizar uma palestra com muitos detalhes. O ponto alto do evento mais uma vez partiu da encenação do Jorge Bandeira de um texto escrito por Plínio Marcos (1935-1999), mostrando o índio transformado num mendigo, sem vida em seu olhar, sem alma e esperança. Culpa de quem? Dos que os tiraram das suas terras, mas também dos que calaram por medo, dos que nada fizeram para impedir a ganância, dos nossos antepassados e de cada um de nós que ficamos sentados, acomodados vendo passivamente o extermínio do homem nu, tirado à força de seu habitat, da terra e do seu lar. Culpa de quem? Mais uma vez pergunto. Por incrível que pareça encontro um dedo apontado em minha própria direção. Isso é consciência, Naturismo e Natureza andam de mãos dadas e antes de tudo, é um compromisso com a vida. (Edson Medeiros).
    
No quarto dia, encerramento com reverência ao “Ar”. A respiração, o reconhecimento que o corpo tem a sua própria sabedoria, o ar inspirado tem que ser solto, ninguém poderá reter como se um objeto fosse porque se for retido cessa a vida, tem que ser equilibrado, nem mais nem menos. Lembra-nos que a vida é uma fluidez e não estática, um constante dar e receber, que não somos donos de coisa alguma, só estamos usufruindo. Naturalmente surge a “gratidão”, que não é uma atitude e sim um sentimento. Não é que se tenha que agradecer a alguém, é andar no peito com a gratidão por todas as coisas e por todos que encontramos nessa passagem pela vida afora.
Algumas pessoas chegaram quando estávamos finalizando essa atividade ainda perguntaram: “Perdi alguma coisa?”
Sim, perdeu tudo, quem não participou perdeu muito.

Obrigado, as lições foram muitas. Aprendi que o Naturismo é também território das emoções.



Evandro Telles
14/10/13


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Homenagem a Evandro Telles e familiares...

Gostaria de deixar registrada a nossa homenagem ao Evandro Telles, colaborador desse site, e grande divulgador do naturismo Brasil. Há alguns dias recebi e repassei paras as listas de discussão a triste noticia abaixo:

Amigos.

Comunicamos o falecimento da Sra. Madalena, mãe de Evandro Telles, ocorrido nesta manhã de domingo, sendo o enterro marcado para amanhã, segunda-feira, em Cachoeiro de Itapemririm. Há uns 2 meses ela teve um AVC e durante este tempo esteve internada algumas vezes evoluindo para o falecimento.

Aos nossos queridos amigos Evandro e Romilda enviamos nosso carinhoso abraço extensivo aos familiares, 

Maria Luzia
p/ Grupo Naturismo Capixaba


Fica a nossa homenagem ao amigo Evandro Telles e família.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Viva a Liberdade Nua!

ManiFESTAçao pela Liberdade da Nudez #4
1º de dezembro de 2013, na ciranda de palmeiras na Praça da Paz – Parque do Ibirapuera – São Paulo


A debate no programa SuperPop da RedeTV! considerou se a nudez deve ser liberado, ou confinada nas gaiolas das áreas naturistas. Já aconteceram no Parque de Ibirapuera três ManiFESTAcões para a liberdade de nudez. A primeira, nas fotos acima e ao lado, simbolicamente retirou as faixas pretas da censura. A segunda foi coberta pelo jornal naturista Jornal Olho Nu, principal veículo naturista do Brasil, assim como a terceira ManiFESTAção.

Todas estas manifestações foram pacíficas, foram comunicados anteriormente às autoridades competentes, e apesar de acontecer no maior parque da maior cidade do Brasil, acontecerem sem
transtornos e sem muito incômodo para os outros usuários do parque.

É legal?

As manifestações políticos e culturais são protegidas pelas leis e pela Constituição do Brasil. O Ministério da Justiça já liberou o nu sem conteúdo sexual para a televisão aberto, a qualquer horário.E muitos protestos recentes tem usado nudez.

A reação dos frequentadores do parque à manifestação foi variada. Uns chegaram mais perto, inclusive famílias com crianças, outros poucos se afastaram, mas a grande maioridade não deram muita bola. Um grupo de adolescentes indo jogar bola atrasaram o passo um pouco, mais continuaram até o campo de bola.

A Guarda Civil manteve a paz nos três Atos
As guardas municipais, e as guardas terceirizados do parque, estavam preparados para qualquer dificuldade. Não houve. Sacaram então seus telefones, e fizerem recordações do evento.

E as crianças?

Crianças no naturismo sempre suscitam perguntas. Ser visto nus por outros pode lhes causar danos? E pode causar danos a crianças ver o nudez alheio? Ser fotografada faz mal à criança?

Até agora nenhuma família com crianças participou das ManiFESTAções. Foi cena corriqueira ainda no final do século passado crianças pequenas nadando peladas no espelho d'agua em volta do Obelisco no Parque, ou no fonte em frente do Catedral da Sé. Os jornais imprimem fotos de crianças peladas até na capa quando é notícia. Em 1990, Bia Lessa encenou "Suor Angélica" no Theatro Municipal, com umas cinquenta crianças peladas correndo no palco na cena final. E isso é falando das áreas nobres da cidade. O pudor é um privilegio dos ricos - quanto privacidade tem uma família morando num quarto de cortiço ou favela?

E não podemos esquecer de Chico Bento nadando pelado na roça, ou os indiozinhos de Castelo Ratimbum andando pelados como seus antepassados e como seus parentes de hoje.

Mas crianças vendo algo desacostumado, poderiam sofrer danos? Os museus da cidade são repletos de nus. Em 2005 a Oca de Ibirapuera recebeu a exibição "Corpos Pintados", onde conforme um critico de jornal, "Tudo pode ser visto na tez macia de uma garota ou na pele flácida de um idoso." A exposição de pinturas, fotos e esculturas de corpos nus foi frequentado inclusive por grupos de estudantes em uniformes da rede municipal e estadual.

No Parque de Ibirapuera, e no Brasil, o nudez da crianças pode ser visto, e ela poder ver o nudez dos outros. E sempre foi assim.

Tradição naturista brasileira


O naturismo formal nasceu no Brasil com Luz del Fuego, que abandonou sua família tradicional e seu nome Elvira Pagã, para abraçar o naturismo e dançar no palco com duas cobras. Ela fundou o Partido Naturista Brasileira nos anos 50, exigiu o naturismo rigoroso na sua Ilha do Sol na baia de Guanabara, onde exigiu que todos ficassem completamente nus - até o Censo. Luz aguentou a chegada no regime militar, mas foi vítima de um assalto na sua Ilha em 1967. Virou assunto de filme em 1982, peça de teatro em 1992, e ficou até mais famosa depois da morte do que na vida.

Atenção da mídia

O naturismo interesse a mídia? Não. Mas o nudez interessa. Muita cobertura de "naturismo" na televisão em anos recentes, não foi de naturismo. Usou o naturismo para disfarçar o interesse em corpos nus, ou em comédia da mais baixa qualidade.
A matéria na Folha de São Paulo em julho foi de outro padrão. Não foi pruriente, nem humorística, nem "chapa-branca", mas foi jornalismo mesmo.  Investigou vários recantos naturistas, e não engoliu as palavras do entrevistados. Tratou o "código de ética" como regras de etiqueta, por exemplo.
  
O tratamento da RedeTV! foi também respeitoso, pelo menos no estúdio. Não posso opinar sobre o que foi ao ar, pois isso é escrito antes.

Uma coisa é certa: a atenção da mídia deve garanti que haverá bem mais gente no Parque de Ibirapura no primeiro dia de dezembro. Mais gente para observar, e esperamos, mais gente para participar. A liberdade de nudez não é de um pequeno grupo, ou de uma pequena fatia de sociedade que tem o luxo de frequentar áreas particulares. É um liberdade com que todos nós nascemos.