quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A filosofia e a filosofia naturista

Fulêncio, vegetariano, faz naturismo, e gosta de surfar e acampar.

Ele segue, então, as filosofias de vegetarianismo, naturismo ... surfismo e acampismo?

Bem, mas não é que sabemos que os primeiros dois tem suas "filosofias", enquanto surfismo é um esporte, e acampar é somente um passatempo?

Mas muitos brasileiros que ganham um salário mínimo deixaram de ser vegetarianos habituais durante a presidência Lula, pois finalmente poderiam comprar "mistura" e não somente arroz e feijão. Enriquecerem a dieta, ou empobreceram a filosofia?

Os Beach Boys pregam que, "Catch a wave and you're sitting on top of the world", uma declaração filosófica clara e enxuta, mais do que qualquer um que já o ouvi de naturista. E se o naturismo tem a ver com natureza, está mais proxima a ela quem acampa de short e camiseta na Mata Atlântica ou quem está nu no Mirante aguardando o barman trazer outra cerveja?

A filosofia analítica

Para examinar mais profundamente a "filosofia naturista", vamos dar uma passada pela filosofia de verdade.

A correnteza predominante da filosofia moderna, a filosofia analítica, preocupa-se com o senso de expressões, e suas conseqüências lógicas. O sentido de frases, mais do que o sentido de palavras: uma cadeia lógica é igualmente valido sendo sobre a modismo de naturismo, ou a filosofia de surf, ou o esporte de acampar: a substituição de uma palavra de conotação mais simpática não faz um argumento de repente mais forte.

Um exemplo já dado neste blog, é a velha pegadinha "Quantas pernas um cachorro tem, de chamamos o rabo de perna?" A reposta é quatro: ainda que é chamado de perna, o rabo continua sendo um rabo.

Só porque chamamos o surfe de uma filosofia, e o naturismo de um esporte, não faz que o surfe seja por isso uma filosofia, nem que o naturismo seja, por isso, um esporte.

Igualmente, ainda que habitualmente fazemos referência à "filosofia de naturismo" não comprove só por isso que existe mesmo tal coisa. Imagine que espalhássemos pelo Internet milhões de referência ao "rabo de naturismo". Ainda que o "rabo de naturismo" fosse amplamente divulgado nem por isso ele passaria a ser minimalmente abanável.

A decepção das palavras

A filosofia analítica costuma traduzir argumentos em lógica simbólica, e ver as conseqüências dos símbolos. Tem as vantagens de que permite examinar os argumentos desnudados das conotações potentes das palavras, e exige que se examine exatamente o que argumento está afirmando.

Traduzindo para lógica simbólico o celebrada prova de Descartes da existência de Deus, verifique-se que o fulcro do argumento é o uso de dois sentido distintos da mesma palavra, como se fossem idênticos. Que não são.

A lógica desempenha para os filósofos a mesma função que a contabilidade serve para as empresas e cada vez mais para os governos: a de manter-los honestos. É pela balancete que sabemos se o presidente do conselho está falando a verdade para os acionistas, e o prefeito municipal para os eleitores.

"Predador"

As palavras são os tijolos e paus que jornalistas utilizam para construir as suas matérias. Não desconfiam da sua matéria-prima. Mais devem.

Ano passado, o delegado Juliano Brasil Ferreira anunciou a prisão na região de Taquara de uma quadrilha pesadamente armada de 40 homens ... com cinco pistolas. Um pistola para cada oito homens não é "pesadamente armada", até porque não deixaria espaço para "levemente armada".

Só porque o delegado disse "pesadamente armada", não quer dizer que é.

Tanto na prisão de Dr. André Herdy em dezembro de 2007, e a de Nelci Rones em 2010, a polícia anunciou que aquilo era "Operação Predador". Se tivesse dado um nome neutro como "Operação Begônia", ou um que descreveu com mais clareza a finalidade da operação, como "Operação Aparecer", a cobertura teria sido diferente.

Um nome de operação é um opção de marketing. Permite que o repórter e o leitor ou espectador já sabe, num instante, do que se trata. Útil quando é correto, pior que inútil quando não é.

Céu e terra

As palavras são traiçoeiras. Bem antes da filosofia analítica (e antes do feminismo) Dr. Samuel Johnson disse que "Palavra são as filhas da Terra, e coisas são os filhos do Céu." A realidade das coisas é muita acima das palavras utilizadas para descrever-la.

Quando etiquetar é conveniente

As palavras são úteis quando queremos transmitir para alguém uma idéia de uma forma sucinta. Quando falamos de uma "estação de esqui", quem ouve já traz junto uma monte de conotações. Em termos de divulgar naturismo, é util que existe o termo "naturismo" e que seja largamente divulgada, e que a palavra traz conotações de uma prática pacata, consolidada, onde você poder trazer as filhas e a avô se quiser.


Porém, enquanto podemos transmitir uma faceta da verdade para os outros com nossas palavras, não devemos transmitir mentiras - como os delegados fizerem com a terminologia "Operação Predador". Conseguirem que os jornalistas e tele-espectadores engolissem as palavras, e não olhassem para a realidade por trás, que era bem diferente. E, ainda que simplificasse para os outros, não devemos aceitar nossas próprias palavras como substituto para a realidade.

A decepção inócua

Dizer que o naturismo é uma "filosofia" ou um "estilo de vida", em vez de um "esporte", uma "opção", uma "prática", ou uma "moda", é, no fundo, inócua. A sugestão de que há algo profundo por trás de uma prática que a grande maioria acharia estranha - como por exemplo ioga ou cooper, ambos de quais já foram bem excêntricos - é uma jogada de marketing antiga e honrada.

Mas não devemos confundir praticas habituais com "filosofia". Toda escola de samba tem uma "ala de baianas" e uma porta-bandeira e mestre-sala; é por força do regulamento, constume e estilo, ou porque a "ala de baianas", e algo que "faz parte da filosofia da samba"?

Filosofia e ética

Vimos, então, que falar da "filosofia de naturismo" é de usar um termo comum, conveniente da perspectiva mercadológico. No senso mais rígido de "filosofia", o naturismo não tem uma filosofia. Dificilmente vamos encontrar um uso da "filosofia de naturismo" e que "o estilo de vida naturista" não caberia igual, ou até melhor.

Em contraste com a decepção inócua da "filosofia naturista" - que não é uma filosofia - temos o "Codigo de Ética Naturista" - que não é um Código de Ética. Enquanto a "filosofia" é não faz mal, o "Código de Ética" é nocivo.

Mas acabou o espaço. Já falamos hoje da Filosofia sem filosofia, e na próxima trataremos da Ética sem ética.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Continuidade no naturismo brasileiro

A continuidade é dado, como a unidade, como motivo para não chutar a FBrN para o lato de lixo, criando uma organização nova para representar, e defender, naturistas.

Brasil tem uma longa tradição de naturismo. Cabral já encontrou o naturismo praticado por todos. A Luz del Fuego personificou naturismo com a fundação da sua Partida Naturista Brasileira em 1949, e no seu Clube Naturalista Brasileiro em 1954, como Laércio Júlio da Silva explicou aqui no verão passado.

Paulo Perreira, que conheceu Luz del Fuego, dá muitas detalhes sobre a verdadeira historia de naturismo brasileiro nos seu livros, que podem ser comprados no site do Jornal Olho Nu.

Brasil estava representado na fundação da INF-FNI (Federação Internacional de Naturismo) em 1952, e no congresso desta de 1972.

Continuidade e ruptura

O naturismo brasileiro já pode traçar uma história de mais de meio milênio, ou de mais de meio século. Em comparação, o nome "FBrN" tem somente uns vinte anos de uso.

No site da FBrN, há um histórico que liga a organização ao passado, onde se nota uns dos nomes sob quais o naturismo brasileiro já funcionou:

  • Partido Naturista Brasileiro
  • Clube Naturalista Brasileiro
  • Fraternidade Naturista Internacional do Brasil (FNIB)
  • Associação Naturista Brasileira (ANB)
  • Federação Brasileira de Naturismo (FBN)
  • Federação Brasileira de Naturismo (FBrN)

Vimos, então que a descontinuidade de nomes é até uma tradição do naturismo brasileiro. Em 1988, a ANB tinha uma passado honrado, e tinha aguentado a repressão da ditadura militar, que era pesado com qualquer divergência, não somente a política, mas também a cultural e até sexual.

Não houve, em 1988, motivo de abandonar a bandeira "ANB" para adotar uma nova, muito menos fingir que a organização era completamente novo quando quando simplesmente continuou a ANB, o presidente deste, Hans Frillman, ficou como vice-presidente da FBN.

Motivos de mudança

Mas agora há motivos e demais para querer uma nova organização, sob um novo nome. Enquanto a ANB tinha de que se orgulhar, o nome da FBrN já está maculado, e há um armário cheio de esqueletos - e até quem costuma anda somente de pele, não deve deixar esqueletos expostos. A inevitável lavagem da roupa suja da FBrN poderia ser assistido em mais conforto, debaixo de uma outra bandeira.

O maior motivo, é claro, é o abandono de Dr. André Herdy e os outros três naturistas presos com ele no caso Colina do Sol em 2007. Naturistas brasileiros poderiam concluir que uma organização que não defende nem seu próprio presidente, não vai defender ninguém.

Quando Nelci Rones foi preso três anos depois, a FBrN mostou que agora estava preparada - para se distanciar com rapidez de qualquer naturista alvo de acusações falsas.

O mínimo de decência

Seria talvez injusta exigir coragem da FBrN e dos seus dirigentes. Para quem nunca faltou coragem é difícil entender quem nunca tinha.

Mas se coragem não pode ser exigido, o que pode ser esperado é o mínimo de decência. Se à FBrN faltou a coragem de defender Dr. André, pelo menos não precisava aceitar como delegado no Congrenat de 2009 um dos autores das falsas acusações, Etacir Manske. Não precisava aceitar Marcelo Pacheco - que estava curiosamente bem organizado para encenar a destituição de Dr. André em 2007 - e suas muitas procurações.

E antes de dizer que não tinha escolha, bem, a lei exige que reuniões sejam abertas, e fecharam as portas da eleição em violação direta da lei da União. Poderiam ter barrado Manske e Pacheco, sim.

No mesmo Congrenat, não precisavam escolher a Colina do Sol - cujo diretoria era composta basicamente dos caluniadores, e que continuava implacavelmente perseguindo os alvos das suas falsas acusações - como sede da ELAN em 2010, nem ter prestigiado o evento.

A falta de coragem é uma fraqueza humana que precisamos aceitar, ainda que não entendemos.

Mas o acolhimento da corja da Colina do Sol, foi uma falta de decência.

Não de poder esperar ou exigir de todos, coragem. Mas se pode esperar, se podem sim exigir, o mínimo de decência.

Os esqueletos financeiras

Um dos atos da FBrN - sem valor pois perpetrado antes que sr. Tannus foi finalmente legalmente empossado na presidência em novembro de 2009 numa eleição convocada e conduzida conforme a lei, na Praia do Pinho - foi de "reconhecer" uma "dívida" inexistente de mais de R$100 mil, com o sr. Elias Perreira. Era suposamente gastos que ele fez em prole da FBrN, como por exemplo ter se hospedado num hotel de luxo em Espanha quando outros dirigentes brasileiros (e europeus) optaram para um lugar de classe econômico.

Não sei o motivo deste "reconhecimento" de uma dívida tão além das possibilidades da FBrN. Nos EUA, serviria para fraudar a imposta de renda, mas no Brasil, não sei. Nem quero saber. Que a "dívida" de sr. Elais, e qualquer conseqüências criminais da sua fabricação, ficasse com a FBrN!

Tinha vermelha

Também durante muitos anos as contas da FBrN como sua personalidade, foram misturadas com as de Celso Rossi.

Eu já examinei muitos negócios de sr. Rossi, e o próximo que encontro que pode ser chamado de honesto, será o primeiro.

Tanto mais longe dos "rolos" de Celso Rossi, melhor. Mas fácil fechar e abrir outra organização, do que tentar levar para frente algo que foi contaminado pelo contato.

"Ética"

A usa da "ética" como um mecanismo para expulsar desafetos, é um defeito da FBrN que merece um postagem a parte. Mas é um dos males tão enraizados, de tão difícil de extirpar (quem pode estar contra algo chamada de "ética", ainda que não seja?) que melhor começar do zero, do que suar para chegar ao empatado.

Herança Indígena

Os verdadeiros raízes de naturismo brasileiro, nos antepassados indígenas, são valorizado por umas figuras atuais de naturismo, como Carlos Sena em Manaus e Wagner em Tambaba. Porém, foram sempre desprezados pelo FBrN.

Desprezados especificamente pelo FBrN, não pela Luz de Fuego, PNB, CNB, FNIB, e ANB. A FBrN preferiu enfatizar o corrente "europeu" de naturismo.

É que coisa alardeada como "europeu" atrai brasileiro classe média, que nem quer saber de bugre.

E a classe média tem algo que os pobres não tem, que é dinheiro. Pobres foram inúteis para a FBrN pois não possuem nada de qual eles podem ser defraudados, para depois ser expulsos por "falta de ética" se ousam reclamar.

Seria bom resgatar os raízes indígenas do naturismo brasileiro.

Mas a tradição e a continuidade?

O cenário brasileira está cheia de partidos políticos que traçam seus antecedentes até raízes ilustres. O cristianismo está cheia de seitas que se dizem as únicas carregadores da palavra de Deus. A cultura tem movimentos como o tradicionalismo gaúcho (aquele pessoal que anda de bombacha) que perpetuam um tradição que a história desconhece. O arquitetura alpina da estância de Gramado deve sua existência não as tradições alemães, mas a legislação municipal - tudo aquilo data da emancipação de Taquara nos anos 50.

Sim, ter uma tradição é útil, e qualquer organização nova pode enaltecer a tradição ilustre de Luz del Fuego, ou daqueles que pisaram nestas terras antes que Cabral.

Um tradição existe, e quem procura ligações, encontra, ou fabrica conforme a necessidade.

A FBrN se aproveito da estrutura da ANB - na maneira em que o cupim se aproveita da estrutura da casa. A situação societária da FBrN é problemática; o prestígio desgastado; e o moral, irrecuperável.

Deixe para lá. Vamos voltar para a ANB, ou para Luz del Fuego, ou aqueles que avistaram as velas brancas das caravelas de Cabral. Vamos nós despir da carapaça da FBrN, e encarar o futuro, desnudos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Caso Nelci Rones: Ainda sem vítimas ou evidências

Recebemos isto, do jornal Contraponto de Paraíba. Nelci Rones continua preso lá perto de Tambaba, e a polícia e Ministério Público continuam sem vítimas e sem evidências.

 
G-8 Contraponto PARAÍBA, 30/12 a 06 de janeiro do 2011
Geral

Naturista pode estar sendo vítima de injustiça e preconceito do MPE

Sem qualquer prova contundente da prática de pedofilia, naturista continua preso apesar de não haver vítimas

A prisão do naturalista Nelci Rones Pereira de Souza, ex-presidente da Sociecidade Naturista de Tambaba (Sonata), acusado de prática de pedofilia de distribuição de imagens de crianças nuas na internet, pode estar se transformando num clássico caso de "linchamento moral". Até agora, nem o Ministério Publico Estadual e muito menos a Policia apresentou prova contundente de que Nelci Rones tenha, de fato, praticado atos cruiminosas contra crianças.

Nelci Rones foi preso nuna operação coordenada pelo Ministério Publico Estadual contra a pedofilia. A ação foi plenamente gravada por praticamente todas as redes de televisão e pubicada nas edições de todos os jornais do Estado. Com ele, foram encontradas várias fotografias de crianças e adolescentes nuas.

Dito dessa forma, parece que Nelci possuia apenas fotos de crianças e adolescentes. Na verdade, o naturista tinha também em seu poder outras fotos com adultos sem roupas, em praias de nudismo.

Ao que tudo indica, Nelci Rones foi vitima de um grande equivoco e, agora, vai ficar difira para o Ministério Público admitir publicamente que prendeu, expôs em frente de câmeras de tevê e fotografias de jornais uma pessoa inocente.

A operação coordenada pelo MPE chegou a Nelci Rones a partir de denúncia anônima de que ele recebia crianças e adolescentes em casa, no município do Conde, onde ocorreriam abusos sexuais. Na residência do naturista a operação localizou apenas fotos de pessoas nuas, inclusive de
crianças e adolescentes. De posse das fotos, não foi difícil para o Ministério Público efetuar a prisão em flagrante de Nelci Rones. E é exatamente ai onde pode ter se estabelecido a diferença entre o fato e a versão. Para a Polícia e o Ministério Público, a simples posse de fotografias de crianças e adolescentes já caracteriza crime de pedofilia.

Mas o depoimento dos filhos do naturista muda completamente o rumo da versão alardeada pelo MPE. A filha de Nelci, de frente para as câmaras de televisão, garante que tudo não passa de um mal-entendido. As fotos encontradas pela Operação seriam, na prende maioria, dos próprios filhos de Nelci em diferentes fases da vida.

Outra acusação contestada pelos filhos de Nelci e a versão de que o naturista postava fotos de crianças nuas na internet. E aí entra outra vez a diferença entre fato e versão. De fato, Nelci postava fotos de pessoas nuas na rede mundial de computadores. Dito desta forma, parece que ele fazia parte de uma organização internacional de pedofilos.

Na versão dos filhos, o papel de Nelci Rones na Sonata - entidade que administra a área de nudismo na praia de Tambaba - é justamente atualizar a página da entidade na Internet e de manter intercâmbio com outras instituições de difundem a filosofia naturista pelo mundo.

Visto dessa forma, as fotos apreendidas e a interpretação que o Ministério Público Estadual deu ao fato pode fazer a diferença entre crime de pedofila e preconceito e desinformação de nossos procuradores estaduais.

Até o momento, nenhuma vitima de abusos que Nelci Rornes tenha praticado se apresentou à Policia. E praticamente impossível que, diante de tanta exposição na mídia das imagens de tevê e fotografias do suposto 'pedófilo" nenhuma vítima tenha se apresentado para corroborar a acusação.

Inquestionável o papel do Ministério Público no seu mister de defender a sociedade num estado democrático de direito. Mas é preciso moderação por parte dos procuradores, sobretudo pela mega-exposição à mídia que vem recebendo nos últimas anos, para que, de defensores da sociedade, se transformem em algozes de pessoas inocentes, vítinas de acusações levianas e de interpretações fundamentadas, apenas, no preconceito.