segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O navio à pique

"Estamos na mesma viagem. Um sempre está tentando empurrar outro na água. Mas somente um louco faria um furo no barco."

É a sabedoria do recém-eleito rei dos gnomos no Quinto Elefante de Terry Pratchett, sobre uma manobra antes mesmo da coroação.

Os naturistas brasileiros tem menos sabedoria do que os gnomos. A corja da Colina usou falsas acusações de pornografia infantil contra Fritz Louderback e Dr. André Herdy, e três anos depois, a mesma arma foi usada contra Nelci Rones da Sousa em Tambaba. Dia 26/2, a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN)realizaria uma eleição de novo presidente e diretores em Praia do Pinho - e para vários cargos, há uma chapa única dos caluniadores. Vai oficializar a denúncia falso como praxe entre naturistas brasileiros.

São todos loucos?

Naturis antiga, nomes conhecidos

Recebi final de semana retrasada uma copia, bastante mofada e com umas páginas grudadas, de uma edição da revista "Naturis". É bastante antigo, pois há uma foto de Marcelo Pacheco jovem, magro, e bonito - deve ser antes que ele dominou o truque de captar com a lente, a alma do retratado. Reproduzo ao lado, a lista dos responsáveis e colaboradores. O "Conselho Diretor" inclua Carina Moreschi e Marcelo Pacheco.

Priscila Zancheta está em Italia, ouvi falar, e portanto além do alcance da Justiça brasileira. Mas até por isso, ela poderia servir como a conexão internacional que qualquer "rede de pedofilia" precisa para alcançar destaque no noticiário.
Seguindo pelos nomes, encontramos "Richard West - Canadá" com um endereço @virtuallyMagazine.com. Naquele site encontramos uma fita VHS - alguém ainda vende fita VHS! chamado "Nude in the South of Brazil", com o reconhecível restaurante da Colina do Sol ... e crianças peladas, uma de bunda para a câmera.

Richard West é um fotógrafo naturista conhecido; já até vi seus livros em livrarias. Mas ouvi dizer que foi um filme dele que saiu aqui com o título "As Crianças da Colina" que resultou no Termo de Ajuste de Conduto com o Ministério Pública de Taquara, que proibiu que crianças seja fotografadas nuas na Colina do Sol.

A Promotoria recusou quaisquer informações. Não anotei as palavras da moça Cassandra do cartório, mas ela não queria fornecer algo que poderia ser usado contra "a diretoria da Colina" - deste frase tenho certeza. Até me recusou uma cópia do TAC - a do link veio de um sócio. Ficamos, então, no ouvi dizer.

Ouvi dizer também que Marcelo Pacheco participou desta produção do Richard West, e foi para salvar Marcelo Pacheco de problemas, que o TAC foi assinado.
Continuando, encontramos, sob "Tradução", o nome de ... Fritz Louderback, o principal acusado do caso Colina do Sol.
Entre os que colaboraram com a edição é a FBrN, os moradores da Colina do Sol, e de novo, Fritz Louderback.

E bem embaixo, Agradecimentos: Paula Andreazza e Celso Rossi.

Numa outra exemplar da revista, sob o batuque de Marcelo Pacheco, encontrei uma carta de Nelci Rones de Sousa, preso este dezembro passada, também com fotos naturistas de crianças. Estou informado que a policia deu muito peso às revistas que Nelci Rones guardava em casa - Playboy, e Brasil Naturista, também de Pacheco.

O que é a diferença?

Mas claro que haja uma diferença enorme entre as evidências pegas com Fritz Louderback, Barbara Anner, Dr. André Herdy e Cleci, e as fotos naturistas comportadas da revista Naturis ou seu sucessor, Brasil Naturista? Nem tanto.
Na página 12 deste número de Naturis, há uma foto de Laura, uma menina que nasceu sem os antebraços, comemorando que dinheiro foi conseguido para seu tratamento - devido ao mofo [NE: troquei por uma cópia melhor] , repito o texto ao lado.
Vitoria!!

Graças à colaboração daqueles que, tocados pela necessidade urgente de Laura resolveram ajudá-la, hoje seus sonhos aumentaram. Obrigado de coração a todos os doadores, ao pessoal da A.A.N.R e à Linda Berry, da revista "The Bulletin". Valeu!
Acho que foi Linda Berry que me mandou um xerox da página do Bulletin em que saiu a propaganda que arrecadou o dinheiro. Eu a queria para que meus leitores poeriam a ver com seus próprios olhos, pois esta propaganda foi a "imagem mais significativa" - quer dizer, o pornô mais pesado - que o FBI americano encontrou no laptop de Fritz Louderback.

Delegado Juliano Brasil Ferreira encaminhou o computador de Fritz Louderback para ser examinado pelo FBI. Nós já lemos aqui o relatório do FBI, traduzido do inglês e do informatiquês, para o português.

Conforme Agente Especial (SA) John D. Whitaker:


Uma das imagens mais notáveis era "Laura5_02.pdf", localizada em C:\Documents and Settings\Fritz\My Documents\Fritz's Pictures\Older Pics\FRITZ\Colina Stuff\Laura&Lucas\.
Esta imagem mostrava um menino e uma menina, impúberes, posando nus enquanto dançavam, com a legenda "Can. 2002: Laura, 7 anos, usa suas próteses numa lição de dança com seu irmão Lucas, no Centro de Recreação Nudista e Naturista Colina do Sol, Brasil." Texto adicional contido na imagem suspeita:
Propaganda Paga
Laura cresceu e suas próteses não servem mais.
Sem possibilidade de obter estes no Brasil,
mais uma vez Laura precisa de nossa ajuda.
As doações podem ser feitas mandando um cheque ou remessa para:

Laura's Fund
US Bank Community Service
Account Number 1-534-9082-9857
P.O. Box 64799
Saint Paul, Minnesota 55164

Com a ajuda de Nudistas e Naturistas, Laura recebeu suas primeiras próteses no Shriners Children's Hospital de Tampa em setembro de 2000. Com nossa nova ajuda, Laura logo receberá seus novos braços, muito necessários.

Obrigado.


"Uma das imagens mais notáveis"
Este foto é maior indício de pornografia infantil que os esforços conjuntos da FBI e da Polícia Civil gaúcha encontraram nas suas perícias dos computadores de Fritz Louderback e Dr. André Herdy: uma propaganda publicada no boletim da Associação Americana para Recreação Nua.

Naturis não imprimiu a foto da Laura e seu irmão dançando na Colina, e a foto ao lado é discreta - nela não precisei usar pontinhos brancos para ficar dentro das régras de Blogger. Mas há outras fotos neste e noutros números de Naturis, de crianças peladas, igualmente "explicitas". Ou talvez mais: a humidade grudou as páginas coloridas nesta revista velha, e posso avaliar somente as preto-e-brancos.

Fritz e Barbara tinham outras fotos, sim, que eu vi no Palácio do Ministério Publico, na audiência do senador Magno Malta. Fotos de familia, de netos e sobrinhos de Barbara. Uma, lembro, de uma criança pintando uma cerca numa área naturista. Não dava para saber se era menino ou menina - e não importava. Era uma criança pintando uma cerca, e só.

O Senador mostou outras fotos, estas pornográficas, sim - mas foram plantados pela polícia. O inquérito disse que vierem dos CDS. O laudo do IGP/IC que comprova que não houve porno nos CDs - que alqueles fotos foram plantadas - ainda não estava pronto, mas o Departamento de Homicídios segurou os laudos que comprovavam que nada tinha nos computadores, até que a CPI tinha ido embora.

Fotos de crianças peladas são ilegais?

Eu já respondi à esta pergunta faz quase dois anos, com exemplos de jornais de grande circulação. Não são ilegais. As fotos da Naturis, e as fotos de Brasil Naturista, não infringem o Código Penal ou ECA. Mas tampouco as fotos de Fritz Louderback infringiram.

Agora, os dois processos que Marcelo Pacheco responde para usar foto de criança pelada sem permissão da mãe, são assunto da Código Civil.

Os indícios contra Marcelo Pacheco

As processos em que Pacheco é réu por fotos de crianças peladas são civis e não criminais - mas quando a polícia fala com a imprensa, esta diferença tende a ser esquecido. Um freqüentador antigo da Colina do Sol me contou que Pacheco estava envolvido no processo administrativo que deu no TAC. Suas encrencas sobre fotos de crianças peladas, seriam então três. E colaborou com Fritz Louderback, no envio de Laura ao exterior. Foi com sua mãe e para tratamento médico, mas para o delegado e a imprensa, foi "tráfico internacional de crianças".

Vimos, então, que os motivos para justificar a prisão de Marcelo Pacheco, e manter-lo preso - os processos civis mostram que ele foge de oficiais de justiça para não ser citado - são muito mais fortes do que os motivos que colocaram e mantiveram Fritz Louderback e Dr. André Herdy na cadeia.

E o nome de Marcelo Pacheco não é o único naquela revista. Reconheci outros.

É para morrer juntos?

Contra a acusação de pedofilia é dificílimo de se defender. Realmente, uma vez que a imprensa a espalha, como fizerem com Dr. André, Fritz, e Nelci Rones, o estrago é irrecuperável. A condenação e a pena vem junto com a acusação. O processo fica sem o poder de, de fato, inocentar.

É um perigo ao qual todo naturista é vulnerável, e todo naturismo. Vimos em Tambaba que o alvo real não era Nelci Rones, mas a praia naturista, que impedia um empreendimento imobiliário. Em Colina do Sol, tanto Fritz quanto Dr. André ameaçavam o ciclo de enganar-espremer-expulsar da esquema de estelionato. A acusação servia os fins da corja.

João Olavo Rosés e Etacir Manske fizeram as acusações falsas no caso Colina do Sol; Marcelo Pacheco agiu para tirar Dr. André na presidência da FBrN, e para manter-lo quatro meses a mais na cadeia.

Furaram o barco, e a eleição no final do mês vai colocar a leme nas suas mãos. A agenda do CONGRENAT lista para dia 27 "Apresentação do Plano de Trabalho da nova diretoria." Mas não importa onde eles dizem que pretendem navegar: o barco vai para o fundo do mar.

CONGRENAT será em Praia do Pinho, Feb 25-27, 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O naturismo volta à selva

A FBrN resolveu escolher sua liderança da mesma maneira que os lobos: quem mata o lider velho, é o lider novo. Só que a luta não é travada com dentes e unhas, mas com denúncias falsas de pedofilia. Três dos candidatos da chapa única para os mais altos cargos da Federação, fizeram as acusações falsos que causaram a prisão do Dr. André Herdy, então Presidente. No lado bom, a caminho estabelecido, o próximo ambicioso sabe que ele precisa somente fabricar alegações de pornografia infantil contra o presidente da FBrN - e o posto é seu!

A atuação da FBrN na prisão do seu Presidente, Dr. André Herdy, em dezembro de 2007, foi de não somente apoio mas de carinho para com seus acusadores - e de fazer o que era possível para atrapalhar os esforços daquele que lutavam para a liberdade do Dr. André e os outros acusados.

Quem agiu quando Dr. André, Fritz Louderback, e suas esposas Cleci e Barbara Anner foram presos? Agiu primeiro Cristiano Fedrigo, agiu logo Silvio Levy, e eu nada conhecendo dos acusados, da Colina do Sol ou de naturismo brasileiro, bem sabia reconhecer uma acusação falso. Na primeira semana depois das prisões, pedi ajuda junto à imprensa nacional em São Paulo e com o Consulado Americano.

Silio Levy escreveu

Silvio Levy escreveu ao favor dos acusados no Jornal Olho Nu, com o título profético de "Defenda o André - defenda o naturismo!". O uso da prisão sem evidências ou vítimas de Nelci Rones, para logo em seguida tentar fechar Tababa, assim abrindo a praia para um empreendimento imobiliária nabobesco, mostra como o ataque ao naturista segue diretamente no ataque ao naturismo.

O que foi a reação do naturismo?

Silvio ilustrou sua matéria com fotos dos acusados. Os fotos eram do revista Brasil Naturista - propriedade do Marcelo Pacheco (ainda que roubou o título de Roberto Soares) e vimos na página, "Foto excluída por solicitação do portal Brasil Naturista". O lucro de Marcelo Pacheco está acima de qualquer outra consideração.

E foi Marcelo Pacheco, curiosamente bem preparado, que chamou uma "reunião virtual" do Conselho Maior da FBrN para divestir Dr. André da presidência de uma maneira totalmente irregular, e foi ele quem tirou do ar os sites da FBrN e da YNAI do ar, deprivando os advogados de Dr. André de informações sobre naturismo, que poderiam ter lhe ajudado.

"Naturismo não é lugar para criança"

Estou informado por quem ouviu - esta transcrição não é publico - de que Etacir Manske falou para o juiz em Taquara, "Naturismo não é lugar para criança". E os advogado de André, não tinha nada que comprovava o contrário ...

Mas a reação dos "naturistas" não parou por aí. Srs. Etacir Manske e João Olavo Paz Roses entre outros, fizerem boletim de ocorrência, pedindo que Silvio Levy fosse processado, porque acharam suas palavras pacíficas pedindo justiça, como uma grave ameaça, as coagindo.
Silvio, obviamente, foi absolvido, mas não depois do que a promotora abusou do sigilo de processo para que durante seis meses ele estava sendo processado, sem saber o porquê.

Porque tanto interesse de Etacir Manske em manter Fritz Louderback preso? Etacir era um daqueles que fez as acusações falsos que deram na prisão de Fritz Louderback. Etacir devia dinheiro para Fritz, dívida que ele parou de pagar na mesma semana que sua acusação colocou seu credor na cadeia.

Tenho mais que poderia dizer do Etacir Manske, mas estou dirigindo meus considerações à respeito, aos autoridades competentes.

Cristiano Fedrigo

Cristiano Fedrigo é - ou era - o luz mais brilhante entre jovens naturistas em Brasil. Chamado pela revista Seleções de "um dos heróis de hoje", "O Garoto Bom de Taquara", a corja da Colina do Sol - incluindo Etacir Manske e Jõao Olavo Paz Roses - fizerem de tudo para dificultar a vida da mãe dele, Nedy, não deixando Cristano entrar com compras naquele morro, onde ele morava até antes que surgiu a Colina do Sol, exigindo que Nedy carregasse as compras à mão. Eu estava com Cristiano no Congresso Internacional em Tambaba - onde buscávamos ajuda para os falsamente acusados, em vão - e ele me contou que o médico tinha falado para sua mãe de que se ela não abandonasse Barbara Anner, o estresse o mataria. Eu seguia de Paraíba para Taquara uns poucos dias depois que Cristiano, e quando cheguei, ela estava morta.

E depois que mataram a mãe de Cristiano, que era sócio, expulsaram Cristiano.

Richard Pedicini

Eu cheguei em Taquara pela primeira vez na minha vida, procurando os fatos do caso, em março de 2008. Fui ver os lugares importantes no caso - o orfanato em Taquara, Morro da Pedra, o Barracão - e falar com testemunhas e vítimas.

Etacir Manske fez um boletim de ocorrência 1437/2008 - em que ele me acusou de "talvez com o propósito de intimidar as testemunhas de acusação, está do fotografias das casas dos moradores da colina, fazendo perguntas, indagando pessoas moradores vizinhas..."

É chamado jornalismo, Manske. E o que seus vizinhos de Morro da Pedra tem que dizer sobra sua pessoa, é inadequado para um blog cujos leitores incluem damas - o termo mais carinhoso era "cobra".

Manske também me ligou a uma suposta carta anônima para a Colina do Sol, "sendo que tal documento dizia que muito sangue ia rolar, e muito fogo".

Quem acompanha meu blog www.calunia.com.br, sabe que meu estilo é outro. Não derramo sangue, derramo tinta.

CONGRENAT será em Praia do Pinho, Feb 25-27, 2011

Mestre dos fantoches

João Olavo Paz Rosés tem tido, em geral, o cuidado de agir por meio de fantoches, para que outros sofrem as conseqüências de suas absurdas. Um das suas Boletins de Ocorrência eu recordo - ele disse que foi ameaçado por crianças do Morro da Pedra, que tinham o atitude intimidador de andar no meio da rua - que é o único lugar em que é possível andar no Morro da Pedra, as estradas não tendo calçadas ou até beiradas.

Eu sempre tive um desprezo especial para quem ataca criança, mulher, velho, ou outro que não tem como se defender.

Não tenho aqui o protesto da corja da Colina do Sol contra a presença da Barbara, solta em prisão domiciliar, protesto este que resultou nesta senhora de 73 anos sendo levado de volta para prisão, onde era grande o chance de morrer. Diziam que ela tinha "muitas visitas" - seus advogados, com quem obviamente precisava conferir, e não podia em outro lugar; e Silvio Levy, que tinha alugada uma cabana, mas amigos achavam que ele correria risco da vida da corja, e que ele seria mais seguro junto com Barbara. Creio que João Olavo participava, também, disso - este tipo se sente seguro em atacar velhinha.

Obviamente, uma velha numa casa isolada, não era inconveniência para ninguém. Mas tramando a volta à prisão dela, houve a chance que sua saúde incerta, e as condições péssimas dos presídios brasileiros, poderiam em conjunto tirar esta pedra do caminho da corja.

Eleição da FBrN

A noção dos nomes de Etacir Manske, João Olavo Paz Roses, e Marcelo Pacheco, nomeado num eleição - e como candidatos únicos! - assusta. Assusta, não. Dá nojo. Nojo, e surpresa ao suicídio coletivo da FBrN.

Há um tipo de eleição, sim, em que todos estes candidatos devem ser eleitos. Um velho costume de Atenas, o "ostracismo", em que era votado a exclusão de alguém da comunidade durante dez anos. Dez anos é pouco para Etacir Manske, João Olavo Paz Roses e Marcelo Pacheco. A maneira que tramaram a prisão de Dr. André Herdy, Fritz Louderback, Barbara Anner e Cleci, e que depois fizerem o que poderiam para atrapalhar quem ajudou, merece um exilo de mais de dez anos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SOBRE A NUDEZ SOCIAL

(publicado em http://evandrotelles.blogspot.com/2011/02/artigo-sobre-nudez-social.html)



Por Viegas Fernandes da Costa

I – A genitália encoberta pela hipocrisia

                “Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder”, dizia Dora Vivacqua (1917 – 1967), a dançarina que entrou para a história do naturismo brasileiro sob o pseudônimo Luz del Fuego e como fundadora o primeiro clube naturista do Brasil, na Ilha do Sol, Rio de Janeiro, em 1954. Ativista da nudez social, Dora enfrentou o moralismo dos carolas de plantão através da exposição da sua nudez à sociedade e fundando um partido político – o Partido Naturalista Brasileiro – pelo qual chegou a se candidatar ao cargo de Deputada Federal. Apesar de todos os esforços, e do movimento que começou a se organizar a partir da sua atuação, a prática do naturismo enfrentou (e ainda enfrenta) muitas resistências em nosso país, tendo seus adeptos sofrido a repressão dos militares, da igreja, da sociedade mal informada e daqueles que entendem a nudez humana como algo a ser explorado pela indústria pornográfica.

                Ao iniciar estas breves reflexões a respeito da minha experiência com a nudez social, ocorre-me à lembrança uma matéria da revista Veja do final da década de 1990, que tratava da guerra civil na Libéria. Chamou-me especial atenção uma fotografia que exibia o cadáver de um homem nu que havia sido linchado pelos guerrilheiros e abandonado à rua. Podia-se ver todo o corpo, suas feridas, a expressão de dor na face inerte e as lanhuras nos braços e pernas. Sobre o pênis, entretanto, uma espécie de tarja. Fiquei me perguntando o que seria mais obsceno: se a guerra civil e toda sorte de dor e destruição que esta provoca, onde cadáveres humanos são abandonados insepultos em meio à população que desesperadamente tenta sobreviver; ou se a exposição de um pênis aos olhos de leitores pudicos que poderiam se escandalizar, dando uma conotação sexual doentia a uma parte de um corpo humano barbaramente torturado e morto. Encaramos com naturalidade a guerra, o genocídio, a desestruturação social e a tortura, mas a nudez que nos cobre desde nosso nascimento é desnaturalizada ao ponto de um pênis supostamente chocar mais que a própria barbárie da guerra. Há aqui, certamente, uma inversão de valores sobre a qual devemos nos questionar e incomodar.

                Ao ler artigos de naturistas portugueses, deparo-me com a expressão “sociedade têxtil”, que sempre considerei pertinente e que pode ajudar a explicar a aversão da exposição da nudez total do corpo humano em sociedade para além do moral. Em 2008 Viviane Castro desfilou no carnaval carioca pela escola de samba São Clemente, “vestindo” apenas um tapa-sexo de três centímetros. Não fossem esses três centímetros, a passista seria considerada nua e sua escola perderia pontos junto aos jurados. Em ensaio intitulado “O casaco de Marx” Peter Stallybrass escreve que, em uma sociedade capitalista, a mercadoria “torna-se uma mercadoria não como uma coisa, mas como um valor de troca. Ela atinge a sua mais pura forma, na verdade, quando ela é mais esvaziada de particularidades e de seu caráter de coisa”. Para exemplificar a sua afirmação, Stallybrass se utiliza dos usos que Karl Marx fazia do seu casaco; aqui, entretanto, quero me valer do tapa-sexo de três centímetros “vestido” por Viviane Castro. Afinal, qual a função representada pelo tapa-sexo em questão? Vestir? Cobrir a nudez? Acaso o corpo da mulher restringe-se somente à vagina? À que ordem ou economia pertence a obrigatoriedade do encobrimento da genitália, ainda que ínfimo, nos regulamentos do carnaval carioca, uma festa popular que explora a sexualidade tão explícita? Da mesma forma nos questionamos a respeito da moda que propõe transparências, principalmente no vestuário feminino, permitindo o vislumbrar dos seios e outras partes do corpo até então escondidas por tecidos opacos, sem entretanto fazer com que julguemos nua quem as veste. Está vestida de transparências, mas está vestida. Assim, qual a função da transparência na sociedade têxtil? O que o faz com que uma mulher ou um homem sintam-se vestidos na praia, ainda que trajando minúsculos biquínis e sungas?

                Certa vez ouvi um historiador da indumentária dizer que a moda ainda cometerá muitas ousadias, entretanto, jamais a de propor, seriamente, a nudez total para o ser humano, sob o risco de destruir a si e à indústria que alimenta. Tinha razão. O que liga o tapa-sexo, o casaco de Marx, as roupas transparentes, as sungas e os biquínis ínfimos é justamente o fato de estarem esvaziados do seu caráter de coisa, como disse Stallybrass. Tais objetos são, na realidade, representação, e possuem um caráter de mercadoria. O uso que fazemos deles, enquanto mercadoria, nem sempre corresponde a uma certa função de coisa que lhes possa ser inerente. Viviane Castro não “vestiu” o tapa-sexo de três centímetros para cobrir sua nudez, mas para atender às exigências de um discurso; da mesma forma que Marx não utilizava seu casaco para exclusivamente se proteger do frio, mas também para aparentar distinção a fim de que pudesse ser aceito na biblioteca onde fazia suas pesquisas. Quando vamos à praia vestidos de fios-dentais e sungas, oficialmente estamos atendendo também a uma ordem discursiva de pudicícia; entretanto, não é exatamente pudico nosso critério de escolha quando estamos em uma loja comprando a roupa de praia para o próximo verão. Todos sabemos o quanto uma roupa pode fetichizar nosso corpo, e é este poder de fetichização que muitas vezes buscamos quando nos postamos diante do espelho de um provador. Assim, ao escondermos, mostramos, e na maioria das vezes mostramos algo que não existe senão no desejo, seja no de exibir, seja no de ver. Não quero aqui, porém, incorrer no mesmo equívoco que critico. A fetichização estimulada pela indumentária não é, em si mesma, algo errado, desde que compreendida em sua dimensão cultural. Se a roupa me serve como instrumento de representação social, devo reconhecer tal fato, e não naturaliza-lo sob um discurso hipócrita que imputa aos genitais sujeira e vergonha. “Vergonhas” era como Pero Vaz de Caminha se referia às vaginas das nativas em sua carta de “achamento” ao Rei de Portugal: “ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”  Vejamos, Caminha está impregnado do discurso do seu tempo, ainda assim conclui dizendo que não tinham eles, europeus cristãos, vergonha alguma em contemplar a nudez dos nativos. Compreendeu Caminha que um corpo socialmente nu, que assume assim sua condição integral de corpo ante os olhos do outro, deixa de ser apenas uma vagina, um pênis ou um par de seios?

                O poder econômico reprimiu nossa nudez e agora pode vendê-la; o poder simbólico da ética judaico-cristã, moldada no elogio da dor e da carência, reprimiu nossa nudez, desejos e prazeres para assim melhor nos disciplinar. Disciplina que nos move para a guerra e para a fábrica; economia que nos fragmenta, fetichiza e transforma em mercadoria. Ao fim restamos como aquele cadáver fotografado, abandonado nas ruas da Libéria, a genitália encoberta pela hipocrisia.

II – Despindo espartilhos
               
                Quando me propus a escrever um depoimento a respeito da minha experiência com a nudez social e comunidades naturistas, não pretendia tanta tergiversação sobre a nudez e a sociedade têxtil. Entretanto, faz-se necessário compreender que despir-se das vestes no seio de uma coletividade implica não apenas assumir e respeitar seu próprio corpo, bem como afrontar toda uma ordem discursiva que entende existir no corpo o contrário daquilo que defendia Dora Vivacqua, ou seja, que portamos parte pudentas, vergonhosas, sujas e incontroláveis, e que por isso mesmo devem permanecer resguardadas para a intimidade. Ordem discursiva inerente aos interesses materiais e simbólicos do nosso tempo e sociedade. Tenho consciência da falta de ineditismo das reflexões que trago aqui, afinal, a discussão sobre a nudez social é antiga nas sociedades ocidentais (e há sociedades onde esta discussão sequer se faz necessária, pois jamais alijado o corpo do direito à nudez), tendo os movimentos de nudismo se organizado, na Europa por exemplo, desde o inicio do século XX.

                Ainda assim, no Brasil, a nudez social é mal compreendida e resiste muito preconceito em relação ao tema e seus adeptos. Após o assassinato de Luz del Fuego, em 1967, o então chamado o movimento naturalista começou a se dispersar, e sobraram alguns poucos adeptos do nudismo, que enfrentavam a marginalização e se entregavam à prática em praias de difícil acesso, estado agravado pela ditadura militar brasileira. Segundo narra Celso Rossi, em seu livro “Naturismo: a descoberta do homem”, foi apenas a partir da segunda metade da década de 1980 que um movimento organizado, autointitulado naturista, começou a se desenvolver a partir da Praia do Pinho, no litoral catarinense. À época a Praia do Pinho, localizada no município de Balneário Camboriú, era acessada por uma estrada de terra bastante íngreme e em péssimo estado de conservação, o que atraía os praticantes da nudez social para aquele local, já que tornava-o pouquíssimo frequentado. Após uma reportagem sensacionalista da revista Manchete, em 1984, a Praia do Pinho foi apresentada ao país como um local onde pessoas nuas tomavam banho de sol e mar, atraindo para lá toda sorte de curiosos e a atenção das autoridades públicas e das forças de repressão. Como resposta à invasão de curiosos e à repressão aos naturistas freqüentadores do Pinho, alguns destes começaram a organizar um movimento que, em 1986, resultou na Associação Amigos da Praia do Pinho e na redação de um Código de Ética Naturista. Dois anos depois, em 1988, ainda a partir do Pinho, foi fundada a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN). Como se vê, uma história bastante recente. Segundo o “Guia Brasileiro de Naturismo”, publicado na edição de número 10 da revista “Brasil Naturista” (dezembro/2010), são pouco mais de vinte as áreas onde a nudez social é legalmente institucionalizada e praticada em todo território nacional, e estima-se em aproximadamente 300 mil o número de naturistas brasileiros declarados.

                Foi justamente na Praia do Pinho, há poucos anos, que, acompanhado de minha esposa, passei a experimentar a nudez social. Experiência e vivência que pretendo brevemente discutir agora.

                Considerando o fato de vivermos inseridos em uma sociedade profundamente hedonista, onde o culto a um “corpo perfeito”, padronizado nos discursos da moda, da mídia e da medicina estética, leva uma imensa quantidade de pessoas às academias de ginástica, mesas de cirurgia e aos balcões das lojas de suprimentos alimentares e inibidores de apetite, o imaginário a respeito da geografização do nosso corpo muitas vezes potencializa nossas neuroses e nosso medo da nudez. Ou seja, além de toda ordem discursiva que procura cercear nosso direito à nudez, tememos também nos despir por nos acharmos feios e disformes. Que nossa nudez agredirá o olhar do outro não apenas pela nudez em si mesma, mas porque nosso corpo nu, em particular, não condiz com uma norma estética, arbitrariamente idealizada, mas que muitas vezes reconhecemos como socialmente legítima. Internalizamos a crença de que estar fora desta idealização agride não apenas ao olhar que busca o “belo” em meu corpo, mas que permite ao outro me julgar não apenas como feio, mas também como um desleixado, por ter permitido que a indisciplina moldasse minhas carnes, ou, e ainda pior, como um fracassado, já que perseverei no “cuidado de mim”. Assim, despir-se das vestes em público significa ato não apenas de ruptura com uma moral que encontra em nossos corpos partes pudentas, naturalmente obscenas, e por isso necessárias de serem encobertas, como já discutimos, mas também ato de assunção do próprio corpo enquanto estrutura integral e natural, apesar de todas as interferências culturais que sobre si recaem. Conviver socialmente com um corpo completamente descoberto significa, também, compreender uma mudança de valoração social. Enquanto sujeitos múltiplos, continuaremos representando papeis, ainda que nus; porém, o fetiche que a sociedade têxtil imprime sobre nossos corpos através da indumentária e do jogo de esconder e revelar que esta estimula, na prática da nudez social dá lugar a outro nível de valoração, que considera o sujeito naquilo que este diz e na maneira como age no interior do grupo. Persistem com a prática da nudez social – que não sejamos românticos – camadas de preconceito para consigo e para com o outro; entretanto, a primeira camada de julgamento social que tecemos quando avistamos alguém trajado com sua fantasia no seio de uma sociedade têxtil, desaparece. Serei julgado quando me fizer conhecer, e não apenas pelas etiquetas que exibo afixadas nos panos que me cobrem. E o que parece um gesto breve, de pouca importância, resulta em um processo de novos despires onde pré-conceitos podem dar lugar a relações pautadas por conceitos, construídos a partir do conhecimento, do diálogo e da interação. Conceito que construímos não apenas a respeito do outro, bem como a respeito de nós mesmos; ou seja, a nudez social estimula a alteridade.

                Sabemos, portanto, do quão transgressor pode se caracterizar o gesto de tirar a roupa e conviver socialmente sem esta. Insisto lembrar que o caráter transgressor da nudez está relacionado com o contexto social em que se insere, em nosso caso, a sociedade têxtil. A transgressão e ousadia do ato parece ainda maior quando se trata de corpos que a sociedade classificou como “defeituosos ou deficientes”. Ou seja, que por alguma característica que manifesta, afasta-se da imagem que temos de um corpo normal, construída em nosso imaginário. Digo isso de experiência própria, já que carrego em meu corpo as marcas de uma doença neuromuscular que me atrofiou os membro inferiores e superiores, e provocou “deformidades” em minha coluna e tórax. Então, além da necessidade de se desconstruir todo discurso moralista, higiênico e jurídico que recai sobre a nudez social, a pessoa, cujo corpo se apresenta marcado por “deformidades”, necessita descontruir o estigma que internalizou a partir de uma série de discursos limitadores e deformadores do portador de direitos especiais. Ao dizer isso, ocorre-me o caso de Emma Muller, filha do naturista alemão Fritz Müller (1822- 1897), radicado no Vale do Itajaí a partir de 1852. Emma possuía uma doença que lhe afetou o desenvolvimento físico e mental, e era, por este motivo, afastada do convívio social. Este caso chama ainda mais quando sabemos que Fritz Muller, renomado cientista, foi um dos principais defensores da teoria evolucionista desenvolvida por Darwin. Temos consciência que situações de afastamento social, como no caso de Emma, não era exceções, mas regra no século XIX; e que apesar de todos os avanços jurídicos e de todas as mudanças culturais que presenciamos em nosso país naquilo que se refere aos direitos e às condições das pessoas portadoras de direitos especiais, ainda agora, em pleno século XXI, aquele que carrega no corpo os estigmas de uma doença ou trauma físico precisa lutar não apenas contra o preconceito social, mas principalmente contra os estigmas que intenalizou e assumiu como reais. Se Malcom X ensinou às mulheres negras estadunidenses a se olharem no espelho e se reconhecerem enquanto belas, da mesma forma, cada sujeito, independente de suas “marcas pessoais”, deve aprender o mesmo.

                Peço desculpas ao leitor se me estendi em demasia para dizer o que parece óbvio, mas ao pensar a respeito da minha experiência particular com a prática da nudez social, primeiramente na Praia do Pinho (um balneário preponderantemente turístico) e, posteriormente na Colina do Sol (uma comunidade naturista), necessitei compreender as razões das dificuldades do ato de me despir, ainda que muito o desejasse; e percebi que tais razões perpassam toda uma teia que imbrica discursos e estratégias que se configuram no político e no pessoal, e que contribuíram na minha subjetivação. Ao compreender isso, percebi a dimensão libertadora da nudez social. Libertadora porque contribuiu, primeiramente, para um processo de reconhecimento e aceitação pessoal, o  que alterou estruturas internas, psicológicas. Ao me aceitar com todas as marcas que me constituem e me apresentam aos olhos do outro, nego a este outro o direito de me envergonhar, porque não há corpo que não carregue sua parcela de “graça” e “desgraça”. Quando despidos dos espartilhos contemporâneos, das vestes que nos imprimem uma ortopedia social, percebemos que não há liberdade na idealização, que o verdadeiro “Frankenstein” é aquele que obedece todas as medidas, e que não pode, portanto, ser humano, ainda que tocado pela civilização. Só há “graça” na diferença, pois apenas a diferença pode oportunizar a conciliação,  o congraçamento.

                Assim, ao despir-me, na Praia do Pinho, reconheci a “graça” em mim, o “cuidado de si” não para atender às necessidades estéticas do outro, mas para a minha conciliação comigo mesmo, em um processo de reconhecimento da minha integralidade. Da mesma forma como o corpo de Viviane Castro não se resume à vagina, meu não se resume ao pênis ou aos pés atrofiados, por exemplo, que até então escondia dos olhos que não fossem meus. Daí  este sentido libertador que a nudez social significou para mim, e que se aprofundou depois que passei a freqüentar a comunidade naturista Colina do Sol, no município gaúcho de Taquara. Em vida comunitária, a nudez social estabelece outros tipos de relações, ainda mais honestas, e as possibilidades de assunção integral de si são maiores e mais intensas.

                Agora, ao finalizar estas linhas, recordo-me de uma situação que talvez possa sintetizar o que procurei compartilhar aqui. Há algum tempo, quando conversando com amigos a respeito da prática social da nudez, expliquei que em minha residência, na maior parte do tempo, não vestia qualquer tipo de roupa, e quando acaso aparecia alguma visita, era assim, nu, que a recebia. Neste momento um amigo interpelou-me, argumentando que tal prática não era adequada, já que eu deveria respeitar as minhas visitas. Penso que foi justamente esta fala deste amigo que me levou a escrever estas linhas. Tal qual Dora Vivacqua, também não posso conceber que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder. Nasci nu, e nu fui primeiramente reconhecido. Desrespeito seria, portanto, aceitar que alguma parte minha deve causar vergonha a um amigo, que algo em meu corpo é, em essência, imoral ou indigno. Afinal, neste caso, a depravação não está na carne que se mostra, mas no olhar que julga.

 Viegas Fernandes da Costa é escritor e historiador. Autor dos livros “Pequeno álbum”, “De espantalhos e pedras também se faz um poema” e “Sob a luz do farol”. A publicação deste texto está permitida desde que mantido na íntegra e citado o autor.