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sábado, 8 de janeiro de 2011

Continuidade no naturismo brasileiro

A continuidade é dado, como a unidade, como motivo para não chutar a FBrN para o lato de lixo, criando uma organização nova para representar, e defender, naturistas.

Brasil tem uma longa tradição de naturismo. Cabral já encontrou o naturismo praticado por todos. A Luz del Fuego personificou naturismo com a fundação da sua Partida Naturista Brasileira em 1949, e no seu Clube Naturalista Brasileiro em 1954, como Laércio Júlio da Silva explicou aqui no verão passado.

Paulo Perreira, que conheceu Luz del Fuego, dá muitas detalhes sobre a verdadeira historia de naturismo brasileiro nos seu livros, que podem ser comprados no site do Jornal Olho Nu.

Brasil estava representado na fundação da INF-FNI (Federação Internacional de Naturismo) em 1952, e no congresso desta de 1972.

Continuidade e ruptura

O naturismo brasileiro já pode traçar uma história de mais de meio milênio, ou de mais de meio século. Em comparação, o nome "FBrN" tem somente uns vinte anos de uso.

No site da FBrN, há um histórico que liga a organização ao passado, onde se nota uns dos nomes sob quais o naturismo brasileiro já funcionou:

  • Partido Naturista Brasileiro
  • Clube Naturalista Brasileiro
  • Fraternidade Naturista Internacional do Brasil (FNIB)
  • Associação Naturista Brasileira (ANB)
  • Federação Brasileira de Naturismo (FBN)
  • Federação Brasileira de Naturismo (FBrN)

Vimos, então que a descontinuidade de nomes é até uma tradição do naturismo brasileiro. Em 1988, a ANB tinha uma passado honrado, e tinha aguentado a repressão da ditadura militar, que era pesado com qualquer divergência, não somente a política, mas também a cultural e até sexual.

Não houve, em 1988, motivo de abandonar a bandeira "ANB" para adotar uma nova, muito menos fingir que a organização era completamente novo quando quando simplesmente continuou a ANB, o presidente deste, Hans Frillman, ficou como vice-presidente da FBN.

Motivos de mudança

Mas agora há motivos e demais para querer uma nova organização, sob um novo nome. Enquanto a ANB tinha de que se orgulhar, o nome da FBrN já está maculado, e há um armário cheio de esqueletos - e até quem costuma anda somente de pele, não deve deixar esqueletos expostos. A inevitável lavagem da roupa suja da FBrN poderia ser assistido em mais conforto, debaixo de uma outra bandeira.

O maior motivo, é claro, é o abandono de Dr. André Herdy e os outros três naturistas presos com ele no caso Colina do Sol em 2007. Naturistas brasileiros poderiam concluir que uma organização que não defende nem seu próprio presidente, não vai defender ninguém.

Quando Nelci Rones foi preso três anos depois, a FBrN mostou que agora estava preparada - para se distanciar com rapidez de qualquer naturista alvo de acusações falsas.

O mínimo de decência

Seria talvez injusta exigir coragem da FBrN e dos seus dirigentes. Para quem nunca faltou coragem é difícil entender quem nunca tinha.

Mas se coragem não pode ser exigido, o que pode ser esperado é o mínimo de decência. Se à FBrN faltou a coragem de defender Dr. André, pelo menos não precisava aceitar como delegado no Congrenat de 2009 um dos autores das falsas acusações, Etacir Manske. Não precisava aceitar Marcelo Pacheco - que estava curiosamente bem organizado para encenar a destituição de Dr. André em 2007 - e suas muitas procurações.

E antes de dizer que não tinha escolha, bem, a lei exige que reuniões sejam abertas, e fecharam as portas da eleição em violação direta da lei da União. Poderiam ter barrado Manske e Pacheco, sim.

No mesmo Congrenat, não precisavam escolher a Colina do Sol - cujo diretoria era composta basicamente dos caluniadores, e que continuava implacavelmente perseguindo os alvos das suas falsas acusações - como sede da ELAN em 2010, nem ter prestigiado o evento.

A falta de coragem é uma fraqueza humana que precisamos aceitar, ainda que não entendemos.

Mas o acolhimento da corja da Colina do Sol, foi uma falta de decência.

Não de poder esperar ou exigir de todos, coragem. Mas se pode esperar, se podem sim exigir, o mínimo de decência.

Os esqueletos financeiras

Um dos atos da FBrN - sem valor pois perpetrado antes que sr. Tannus foi finalmente legalmente empossado na presidência em novembro de 2009 numa eleição convocada e conduzida conforme a lei, na Praia do Pinho - foi de "reconhecer" uma "dívida" inexistente de mais de R$100 mil, com o sr. Elias Perreira. Era suposamente gastos que ele fez em prole da FBrN, como por exemplo ter se hospedado num hotel de luxo em Espanha quando outros dirigentes brasileiros (e europeus) optaram para um lugar de classe econômico.

Não sei o motivo deste "reconhecimento" de uma dívida tão além das possibilidades da FBrN. Nos EUA, serviria para fraudar a imposta de renda, mas no Brasil, não sei. Nem quero saber. Que a "dívida" de sr. Elais, e qualquer conseqüências criminais da sua fabricação, ficasse com a FBrN!

Tinha vermelha

Também durante muitos anos as contas da FBrN como sua personalidade, foram misturadas com as de Celso Rossi.

Eu já examinei muitos negócios de sr. Rossi, e o próximo que encontro que pode ser chamado de honesto, será o primeiro.

Tanto mais longe dos "rolos" de Celso Rossi, melhor. Mas fácil fechar e abrir outra organização, do que tentar levar para frente algo que foi contaminado pelo contato.

"Ética"

A usa da "ética" como um mecanismo para expulsar desafetos, é um defeito da FBrN que merece um postagem a parte. Mas é um dos males tão enraizados, de tão difícil de extirpar (quem pode estar contra algo chamada de "ética", ainda que não seja?) que melhor começar do zero, do que suar para chegar ao empatado.

Herança Indígena

Os verdadeiros raízes de naturismo brasileiro, nos antepassados indígenas, são valorizado por umas figuras atuais de naturismo, como Carlos Sena em Manaus e Wagner em Tambaba. Porém, foram sempre desprezados pelo FBrN.

Desprezados especificamente pelo FBrN, não pela Luz de Fuego, PNB, CNB, FNIB, e ANB. A FBrN preferiu enfatizar o corrente "europeu" de naturismo.

É que coisa alardeada como "europeu" atrai brasileiro classe média, que nem quer saber de bugre.

E a classe média tem algo que os pobres não tem, que é dinheiro. Pobres foram inúteis para a FBrN pois não possuem nada de qual eles podem ser defraudados, para depois ser expulsos por "falta de ética" se ousam reclamar.

Seria bom resgatar os raízes indígenas do naturismo brasileiro.

Mas a tradição e a continuidade?

O cenário brasileira está cheia de partidos políticos que traçam seus antecedentes até raízes ilustres. O cristianismo está cheia de seitas que se dizem as únicas carregadores da palavra de Deus. A cultura tem movimentos como o tradicionalismo gaúcho (aquele pessoal que anda de bombacha) que perpetuam um tradição que a história desconhece. O arquitetura alpina da estância de Gramado deve sua existência não as tradições alemães, mas a legislação municipal - tudo aquilo data da emancipação de Taquara nos anos 50.

Sim, ter uma tradição é útil, e qualquer organização nova pode enaltecer a tradição ilustre de Luz del Fuego, ou daqueles que pisaram nestas terras antes que Cabral.

Um tradição existe, e quem procura ligações, encontra, ou fabrica conforme a necessidade.

A FBrN se aproveito da estrutura da ANB - na maneira em que o cupim se aproveita da estrutura da casa. A situação societária da FBrN é problemática; o prestígio desgastado; e o moral, irrecuperável.

Deixe para lá. Vamos voltar para a ANB, ou para Luz del Fuego, ou aqueles que avistaram as velas brancas das caravelas de Cabral. Vamos nós despir da carapaça da FBrN, e encarar o futuro, desnudos.

sábado, 22 de maio de 2010

Caravana Brasil, destino Goiânia


20 de Maio de 2010
A Secretaria Municipal de Turismo de Goiânia estará realizando em conjunto com a Goiás Turismo, a Associação Brasileira de Operadoras de Turismo – Braztoa e a Embratur mais uma edição do Projeto Caravana Brasil destinado à visitação da Capital e outras cidades turísticas goianas como Caldas Novas e Rio Quente. A Embratur desde 2003 realiza o Projeto Caravana Brasil em parceria com setores públicos e iniciativa privada interessados em incentivar e comercializar novos produtos turísticos no mercado internacional e igualmente ampliando as ofertas para os brasileiros. Já foram realizados mais de 100 caravanas, com a participação de aproximadamente 900 profissionais relacionados direta ou indiretamente à indústria turística nacional.
Entre os dias 19 de maio e 28 do mês de junho, Goiânia estará recebendo a visita de vários profissionais de outros Estados com o objetivo de conhecer o que há de melhor em nossa Goiânia: sua qualidade de vida, seus atrativos turísticos e um povo extremamente hospitaleiro e acolhedor. São operadores, agentes, jornalistas, empresários e profissionais do ramo que se deslocarão a Goiânia com a missão de visitar tecnicamente vários locais com potencial turístico emergente. Estão agendadas ações de capacitação e várias reuniões com representantes do trade turístico local.
A proposta é “vender” Goiânia para o mundo, mostrando que nossa cidade além de bonita é um dos principais destinos para se conhecer um pouco mais da história de um Brasil que cresce e se desenvolve rumo a moderna concepção de sustentabilidade. Goiânia se diferencia pela tranquilidade de seus parques e passeios históricos, ambiente propício para fechar bons negócios e empreender grandes ações. Aqui se sente o progresso inovador incrustado na alma do cidadão goianiense.
Além de privilegiada localização, Goiânia está no centro da nação brasileira, temos também o que há de mais moderno convivendo com as tradições populares caminhando ombro a ombro rumo ao desenvolvimento. Uma grande cidade que preserva requintes de bem-estar social, hoje uma raridade para quem vive em outras metrópoles cercadas pela violência e pelo medo de sair as ruas. Ao se distanciar de Goiânia, o goianiense sente saudades de sua cidade e deseja voltar o mais rápido possível. É esse sentimento que queremos deixar aos nossos visitantes: estamos prontamente abertos a todos que queiram vir com o intuito de desfrutar do nosso modo e estilo de vida, a ponto de deixar em cada um a agradável semente do retorno.
Em Goiânia e nas outras cidades contamos com a ajuda de entidades do “trade” turístico como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis – ABIH, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Abrasel e o Convention & Visitors Bureau. Igualmente somos apoiados por comerciantes ligados ao ramo de produção artesanal que trabalham com produtos do cerrado: doces, produtos de beleza e vinho originado de uvas cultivadas em Goiás. Destaque para nossa gatronomia inusitada e ao mesmo tempo simples, agradando os paladares mais exigentes. Trata-se de oportunidade ímpar em mostrar e agregar valor aos produtos originados no cerrado que fazem parte do incentivo ao turismo regional.
A importância está sempre em oportunizar o devido valor ao turismo como gerador de emprego e renda para a população goianiense. Uma visita como essa ajudará a fomentar os vários ramos ligados a chamada “indústria sem chaminés”, que cada vez mais toma corpo com a implantação do turismo sustentável, modalidade em que visitante e morador são parceiros na preservação ambiental. A cidade de Goiânia reserva todos os requisitos para a empreita e está sendo preparada pela atual gestão municipal para ser continuamente um exemplo de qualidade de vida alicerçada na constante preocupação com o meio ambiente.
Está acontecendo no mundo uma mudança gradativa de paradigma em relação ao turismo. Cada vez mais o turista consciente procura seu destino em cidades bem administradas e comprometidas com o desenvolvimento ecologicamente sustentável. Goiânia é seguramente uma delas.
As atividades da Secretaria Municipal de Turismo, capitaneadas brilhantemente pelo secretário Euler Morais e sua equipe de técnicos, priorizam políticas públicas que beneficiem o desenvolvimento como as ações contempladas no Projeto Caravana Brasil.

Laércio Júlio da Silva é formado em Administração Hoteleira, funcionário da Secretaria Municipal de Turismo de Goiânia e um dos organizadores da Caravana Brasil.

domingo, 14 de março de 2010

Ainda sobre as mulheres: o mito Elvira Pagã

Por Laércio Júlio da Silva


14 de Março de 2010

Como março é considerado o mês das mulheres, é pertinente continuar no mesmo assunto. Já muito escrevi sobre a importância das mulheres no movimento naturista, sua contribuição para com o feminismo e a luta pelo resgate do seu próprio corpo. A principal delas, ideóloga e militante responsável pelo que existe na atualidade em termos de naturismo no Brasil, foi sem dúvida nenhuma Dora Vivacqua (Luz Del Fuego, 1917-1967). Mas existiu outra personalidade controvertida e escandalosa com imenso destaque nos anais do naturismo e do feminismo contemporâneo chamada Elvira Pagã. Criatura extraordinariamente inquieta, veio ao mundo para sacudir as entranhas de uma sociedade extremamente conservadora que considerava qualquer artista a “escória da humanidade...”
Nascida Elvira Olivieri Cozzolino (1920-2003) foi protagonista de um dos maiores escandalos da época. Inventora ou descobridora inusitada do biquíni brasileiro, no verão quente de 1949 em plena Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro uma multidão delirante não tirava os olhos do carro alegórico em que ela se apresentava envolta em frutas tropicais. No destaque, como uma deusa do pecado, a Rainha do Carnaval na época, exibia um corpo maravilhoso num ousado traje de banho dourado. Depois que sua capa estilo toureiro fora arrancada pelos fãs ensandecidos, ela rasgara um maiô adaptando o modelo “duas peças” usado no teatro rebolado, lançando oficialmente o biquíni num Brasil repressor e moralista. A plebe gritava por todos os lados: “Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!”. Vem dai o nome artístico.
Foi uma das primeiras artistas brasileiras a explorar o impacto do nudismo, disputando com Luz del Fuego o espaço nos noticiários escandalosos da época. Ativista cultural fez oito filmes, como O Bobo do Rei (1936), Cidade-Mulher (1936), Alô, Alô Carnaval (1936), Dominó Negro (1939), Laranja-da-China (1940), Carnaval no Fogo (1949), Aviso aos Navegantes (1950) e Écharpe de Seda (1950). Rainha do Carnaval durante muitos anos ao longo da década de 50, cantora e compositora lançou treze discos junto com sua irmã. Elvira Pagã foi uma figura emblemática e representante maior da fase do Teatro de Revista brasileiro. Escreveu alguns livros, entre eles “Revelações” e “Vida e Morte”, chegando inclusive a ocupar a cadeira de número 12 da Academia Paulista de Letras. Em 1949 ajudou a formar a “Companhia Juan Daniel”, e construiu seu próprio teatro, O Follies, cujo imóvel pertencia a Antônio Carreira. Estreou com a apresentação de espetáculos que incluíam o nudismo com a participação de Luz del Fuego.
A jornalista e professora de comunicação pela UFRGS, Doris Fagundes Haussen desenvolveu um artigo intitulado “A Revista do Rádio através de seus editoriais (década de 50)”. Nesse trabalho, ela relata um fato curioso que demonstrava uma tentativa da revista em evidenciar uma vida “famíliar” e “pasteurizada” para a vedete Elvira Pagã, adepta do nudismo que viria mais tarde a ser intitulado naturismo. Na seção da revista n° 222, “Minha casa é assim”, foram publicadas uma série de fotos da artista, vestida, mostrando a sala, o quarto e a cozinha, terminando no banheiro com a vedete enrolada em uma toalha, dentro da banheira, junto a uma bolsa de crocodilo, descrita como “para guarda de pertences de banho”. Foi a primeira mulher brasileira a fazer plástica nos seios numa época anterior a moda do silicone. Ficou conhecida por ter posado nua e distribuído a foto como cartão de Natal, sendo na época presa e acusada de “atentado ao pudor”.
A partir dos anos 70, nos moldes do conservadorismo imposto pela chamada “marcha da família”, visada e perseguida pela ditadura que se instalara no país, abandonou a rotina de evidências tornando-se reclusa. Terminou seus dias como pintora e adepta do esoterismo. Morreu aos 83 anos de idade depois de uma vida intensamente polêmica e produtiva.

Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.


www.goiasnat.com.br



"Não ande na minha frente, eu posso não te seguir. Não ande atrás de mim, pode ser que eu não te guie. Caminhe junto a mim e seja meu amigo." Albert Camus

sábado, 6 de março de 2010

A mulher naturista

Publicado no jornal Diário da Manhã

A mulher naturista

06/03/2010
O Dia Internacional da Mulher não é somente um dia em que os homens rendam homenagens ou ofereçam presentes às mulheres num gesto de complacência semelhante ao Dia das Mães ou Dia dos Namorados. É uma data de lutas históricas do século passado que nos remete ao movimento por melhores condições de trabalho e pelo direito ao voto feminino. Em 19 de março de 1910, ocorreu a primeira conferência internacional de mulheres, em Copenhague, dirigida pela Internacional Socialista, quando foi aprovada a proposta da militante alemã Clara Zetkin, instituindo um dia internacional da mulher, embora nenhuma data tivesse sido especificada. Um ano depois, a 25 de Março de 1911, um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist mataria 146 trabalhadoras costureiras. O número elevado de mortes foi atribuído às péssimas condições de segurança do edifício. Presas ao incêndio, as mulheres morreram sufocadas. Na Rússia, em 8 de março de 1917, a greve das operárias da indústria têxtil contra a fome e a participação do país na Primeira Guerra Mundial precipitou os acontecimentos que resultaram na Revolução de Fevereiro. Com base nesses acontecimentos, todos em março, as Nações Unidas adotaram a data como o Dia Internacional da Mulher em 1975.
O mundo foi moldado tendo como base a concepção machista de sociedade. Deve ser por isso que estamos à beira do colapso em todos os sentidos... A história da libertação do corpo feminino se dá na década de 60 quando as mulheres conduziam a revolução cultural-sexual hasteando a bandeira “o corpo nos pertence”. Muito antes disso, nos anos 50 uma artista e intelectual brasileira chamada Luz Del Fuego(1917-1967) já protagonizava através do naturismo, a necessidade de um novo olhar sobre o corpo.
O movimento naturista mundial, apesar de não aceito por parte da intelectualidade, é um dos pioneiros dessa discussão. Mas, voltando ao universo feminino, o “resgate do corpo” foi uma reflexão analisada através da opressão masculina, que servia para justificar posições adotadas contra ela, forçando-a a um lugar secundário ainda presenciado em algumas sociedades e atualmente mascarado em nosso dia a dia. Alegações como “o corpo da mulher é sujo”(alusão à menstruação), “o corpo da mulher é uma fonte de pecado”(alusão ao pecado original), “mulher não sabe dirigir”(alusão à capacidade intelectual) e outras, são supostas anomalias que rebaixavam a mulher em relação ao homem e mesmo que não ditas atualmente, ainda fazem parte do ideário machista de sociedade.
O naturismo oferece há muito tempo outra dimensão. Quando a mulher tira a roupa percebe que ninguém é igual a ninguém e que todos têm diferenças tratadas como “defeitos” pela sociedade de consumo fácil, passa então a se livrar do preconceito incutido nela mesmo e a partir daí tornar-se uma pessoa feliz.
A verdadeira libertação da mulher efetivamente se faz quando ela liga as políticas específicas em defesa do seu corpo às políticas mais amplas de combate ao militarismo, ao preconceito e a devastação do meio ambiente numa luta comum a todos. Se ela se afastar da luta global, estará dizendo ao universo machista que quer deixar tudo como está. Portanto, dia da mulher é todo o dia.
A mulher terá que emergir nesse novo século com o verdadeiro resgate do seu corpo: direito ao prazer, ao planejamento familiar, combate à prostituição infantil, combate às cesáreas e esterilizações indiscriminadas, contribuindo para sua libertação como ser humano, afinal ela é quem dá a vida e melhor do que ninguém sabe defendê-la.

Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat

Diretoria do Goiasnat
secgoiasnat@gmail.com
Visite o sitio www.goiasnat.com.br
O nosso MSN é goiasnat@hotmail.com


"Naturismo é um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, que tem por intenção encorajar o auto respeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente"

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Dois convites a todos os Naturistas Brasileiros

O mês de março promete uma temporada agitada para o Naturismo. Além 1º Encontro dos membros da Papo Naturista, NUBrasil , Sampanu  com apoio Internat2 e o projeto "O Nu na Arte" ( http://projetoonunaarte.110mb.com )  temos a oportunidade de participar e apoiar a campanha Praia Brava, a primeira naturista do litoral Paulista!



Convite a todos os Naturistas Brasileiros,
 
Enquanto a Lei do Naturismo(Lei Gabeira) não entra em pauta no Senado, devemos planejar ações que consolidem a prática do naturismo em nosso país. A exemplo de várias praias legalizadas por Decretos Municipais, a Praia Brava em Boiçucanga, São Sebastião no litoral Paulista reúne as condições ideais para tornar-se a pioneira no estado mais rico do País. Para isso precisamos sensibilizar a população e as autoridades locais, ocupando o espaço que nos é ideal. Um projeto estratégico, que poderá ajudar na divulgação do modo e estilo de vida naturista. Tratando-se de uma apresentação ao público naturista, os valores de hospedagem no Residencial Praia Brava, que esta iniciando o processo de filiação a FBrN são promocionais, atendendo a solicitação da entidade. Por essa razão, convidamos todos os naturistas brasileiros a fazer parte do nosso "fun tour" e tornarem-se sujeitos da história da construção do naturismo no Brasil.
 
Campanha:
Praia Brava, a primeira naturista do litoral Paulista!
 
Laércio Júlio da Silva
Diretor Adm. Financeiro da FBrN e
Presidente do Goiasnat.
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Informações Gerais:
 
Período de 26, 27 e 28 de Março de 2010.
 
Valor da diária independente do tipo de apto:
(incluindo café-da-manhã, almoço e jantar) por pessoa.
R$ 90,00
 
Valor da diária em camping (incluindo café-da-manhã, almoço e jantar) por pessoa.
R$ 50,00
 
Valor para passar o dia incluindo somente uma refeição por pessoa.
R$ 40,00
 
Refeição avulsa(almoço ou jantar): R$ 15,00 por pessoa.
Café-da-manhã: R$ 12,00 por pessoa.
 
Não cobramos taxa de serviço.
 
Não esquecer:
 
bronzeadores,
canga e seu velho amigo
tênis para caminhada!
 
 
Programação:
 
Caminhada até a Praia Brava nos dias 27 e 28 pela manhã por exuberante trilha na Mata Atlântica em uma hora de caminhada com guia ou como opção, acesso por barco até a praia, se as condições climáticas o permitirem.

Welcome Drink no sábado(27) e Forró a noite na beira da piscina do hotel.
 
A prática de  naturismo será liberada dentro do hotel, na trilha de acesso e na Praia Brava. 
 
Atenção: os naturistas do centro-oeste deverão contactar o Laércio ou a Sônia até o dia 14/03 para inclusão no transporte até o local.
Tel. 62 9909-1242 ou 8161-2431.
 
 
VOCÊ VAI RESISTIR ?
 
Realização:
 
Associação Goiana de Naturismo - Goiasnat
Clube Naturista do Planalto Central - Planat
Naturistas do Interior Paulista - NIP
 
Apoio: 
Federação Brasileira de Naturismo - FBrN
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Fevereiro em chamas

Fevereiro em chamas
As dolorosas consequências dos efeitos do aquecimento global são um fato irrefutável somente negado pelos imbecis e por grandes corporações capitalistas que estão pouco se importando com a alta das temperaturas, mas que são capazes de produzir guerras quando o assunto é a queda nos lucros.

Mesmo que isso cause a destruição do planeta, o capitalismo em sua essência é movido por sentimentos gananciosos, adjetivo que costuma causar cegueira entre os homens. Os fracassos das Conferências Climáticas de Genebra e Copenhague estão ai para provar a que ponto chega a insanidade humana.

Em nosso país o fato é que o mês de Fevereiro já está batendo recordes na média histórica de chuvas no sul e calor no centro-oeste, sendo antecipadamente considerado o mais quente dos últimos seis anos. Se as previsões se concretizarem o futuro nos aguarda em forma de secas prolongadas e chuvas torrenciais. Esse novo quadro climático mundial está já há algum tempo produzindo um novo fenômeno de migrações em forma de hordas de miseráveis que não tem mais em sua terra natal a possibilidade de sustentar suas famílias. O surgimento do refugiado climático é a nova mazela que bate as portas do mundo atual. Algo importante a se pensar é que todo migrante sonha poder um dia voltar a sua terra, mas esses refugiados climáticos terão obrigatóriamente que se adaptar a uma nova realidade, porque não existirá mais condições sobrevivência em seu próprio país de origem.

Esse fenômeno já está sendo presenciado no Brasil pelas vítimas das enchentes em Santa Catarina, Maranhão e São Paulo onde em alguns locais inundados simplesmente a água não evadiu mais. Especialistas da ONU estimam que de 200 a 250 milhões de pessoas serão forçadas a sair de suas terras até o meio do século.

Está em nossas mãos o futuro do planeta. Pequenas atitudes podem efetivamente ajudar. Acredito que não seja necessário dizer quais são.
Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O paraíso ameaçado de Lagoa Santa

Por Laércio Júlio da Silva 

06/02/2010
“Um paraíso desconhecido no extremo Sul de Goiás...”, assim foi descrito há poucos anos por reportagem televisiva em horário nobre um dos locais mais pitorescos do ecossistema goiano, pouco conhecido dos brasileiros: a Lagoa Santa. Bem menos badalada que a “xará” mineira, para quem ainda não teve o prazer de visitá-la, trata-se de uma lagoa de água termo-mineral localizada no recém constituído município de Lagoa Santa de Goiás, elevado a essa categoria em 1997. Dotada de beleza magistral e única em sua vazão de enormes proporções, a Lagoa Santa, principal cartão de visita do jovem município, é um paraíso ecológico formado por mata, rio e lagoa de águas termominerais límpidas e translúcidas de efeitos medicinais, com temperatura média de 31º C. Possui fontes naturais sulfurosas, ideais para quem quer relaxar e recarregar energias em seus ofurôs naturais. A água brota do subsolo atingindo uma vazão espontânea de 3.600 m3/h.(fonte: DNPM), provavelmente uma das maiores ou a maior do mundo em se tratando de água mineral. Toda a lagoa está às margens do Rio Aporé, e em alguns pontos distancia-se poucos metros. A Lagoa faz o inverso das outras, brota somente do lençol freático a água que a alimenta desembocando no Rio Aporé fazendo com que este se transforme em uma barragem natural, sem se misturar às águas turvas. Poucas vezes, no período de chuvas intensas, o rio sobe muito e as águas barrentas acabam vencendo e entrando lagoa adentro misturando-se às águas límpidas. O fenômeno é esperado ao longo do ano pela população local que se sustenta do turismo. A sabedoria popular, acostumada até certo ponto com as intempéries, batiza as cheias de vários nomes, a mais famosa é a enchente de São José. Infelizmente as inundações têm se tornando cada vez mais frequentes e sua intensidade e tamanho tem crescido por interferência humana. Trabalhei quatro anos na região gerenciando o hotel e a reserva ambiental particular ao redor da Lagoa. O assoreamento do Rio Aporé, assim como ocorre em vários rios brasileiros, tem ajudado na formação de enchentes que assolam o país e a cada ano prejudicam mais a Lagoa. Conheci varias propriedades a margem do rio que não respeitam a manutenção de matas ciliares conforme as leis ambientais. Plantações de soja e outras culturas que cobrem a margem do rio desafiam a lei e a natureza. A área da Lagoa é uma “ilha” de floresta preservada em meio a uma região desmatada pela agropecuária sendo ainda refúgio permanente para animais silvestres como aves, principalmente emas e araras, tamanduás bandeira e outros que frequentemente encontram a morte na rodovia. Até os anos 80 eram um espetáculo a parte apreciar cardumes de grandes peixes que entravam nas águas translúcidas da Lagoa formando um imenso aquário natural. Hoje não são mais vistos. A fiscalização tem diferentes formas de agir tornando-se complicada a parceria devido à região ser fronteira de rio, dividindo os estados de Mato Grosso do Sul e Goiás. A formação de represas, sem levar em conta o impacto no ecossistema delicado da Lagoa, tem igualmente colaborado para a inundação quando abertas as comportas em época de chuvas intensas. Outro grande problema a ser resolvido pela fiscalização é a perfuração indiscriminada de poços artesianos que podem efetivamente alterar a vazão natural da Lagoa. Testemunhei várias vezes doenças serem atenuada pelos efeitos medicinais das águas da Lagoa Santa incluindo ai o “fogo selvagem”, doença de pele rara e de difícil tratamento. Eu mesmo fui vítima de um acidente automobilístico grave, voltando a trabalhar mesmo antes do término da licença médica graças a seguidas imersões em suas águas. O local sempre foi conhecido por curas proveniente das águas e no meio da Lagoa existe uma ilha de pedra que antes abrigava uma capela para os romeiros que até hoje são atraídos pela fama milagrosa, daí vem o nome como é conhecida. No último dia 30 de Janeiro as águas subiram 8 metros em apenas seis horas cobrindo a Lagoa e arrastando a ponte que permite a passagem para o estado do Mato Grosso do Sul. Foi uma das maiores enchentes sofridas na região. Esperamos que a Lagoa Santa de Goiás não tenha o mesmo destino da Lagoa Azul, atração turística de Arraial d’Ajuda na Bahia. Por interferência humana a lagoa secou de tanto arrancarem argila da falésia de onde brotava a água que a alimentava. Construções irregulares também ajudaram a assorear a lagoa vítima da ação dos especuladores. A população extremamente hospitaleira do município de Lagoa Santa vive em função do turismo e espera providências das autoridades ambientais de Mato Grosso do Sul e Goiás. Caso contrário, as pobres futuras gerações perderão mais um santuário natural que passará a ser somente um lindo cartão postal inexistente.
Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat

www.goiasnat.com.br

sábado, 30 de janeiro de 2010

A luz do naturismo


Por Laércio Júlio da Silva
30/01/2010
O naturismo brasileiro por si só poderia existir sem qualquer tipo de inspiração estrangeira devido às condições climáticas e os habitantes nativos que aqui já viviam nus e felizes bem antes da época do descobrimento. Alguns filósofos ligados à igreja chegaram a afirmar que as naus teriam aportado no paraíso descrito no livro de Gênesis da Bíblia e que nossos índios seriam uma espécie de descendentes diretos de Adão e Eva. A natureza exuberante, os corpos nus e a liberdade fundamentavam essa teoria que mais tarde inspiraria o filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau(1712-1778) e, de tabela, a Revolução Francesa. O estilo de vida naturista foi sempre muito mais presente na nação tupiniquim do que em qualquer outro canto do planeta. Conta-se que os índios brasileiros pelados e acostumados aos banhos frequentes, tapavam o nariz ao se aproximar dos conquistadores fedorentos e atopetados de roupas de algodão cheios de carrapatos, pulgas e percevejos, primeiros colonos peçonhentos trazidos pelas caravelas que a partir daí infestaram o nosso nascente País.

Considerado um modo ou estilo de vida, o naturismo tem inspirado contornos de filosofia ainda em formação, já que a definição de naturismo é muito recente: “é um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, que tem por intenção encorajar o autor-respeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente”. Só em 1974, o Congresso da Federação Internacional de Naturismo (INF-FNI) criou essa definição, hoje adotada por todas as entidades naturistas do mundo contemporâneo.

A história do naturismo brasileiro tem raízes muito profundas também em uma feminista nascida com o nome de Dora Vivacqua (1917-1967), atriz, bailarina, vedete e ativista intelectual brasileira. Vinda a ser conhecida como Luz Del Fuego, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim – Espírito Santo, terra do escritor Rubem Braga e também do igualmente e não menos famoso cantor Roberto Carlos, até hoje o filho mais conhecido da terra. Nascida no ano da Revolução Russa, em 21 de Fevereiro de 1917, fato que mudaria definitivamente a história da humanidade com a conquista do voto da mulher, Luz foi também uma feminista revolucionária e polêmica. Como a maioria das mulheres que desafiavam a estrutura machista e preconceituosa da época, sofreu perseguições e foi assassinada no período ditatorial pós 1964 em circunstâncias até hoje não totalmente esclarecidas. Na sua época, bastava dizer que nenhuma família tradicional gostaria de ver sua filha galgada ao posto de “vedete”. O termo de origem italiana “vedétta” ou francesa “vedette” foi incorporado ao dia a dia brasileiro como sinônimo de atração ligado às atrizes e bailarinas. Também era sinônimo de mulher libertina, fora dos padrões conservadores da sociedade no período do Teatro de Revista que durou de 1838 a 1960.

Outra grande militante nudista foi Elvira Pagã (1920-2003), atriz, cantora, compositora, pintora e igualmente vedete e polêmica, considerada uma das maiores estrelas do Teatro de Revista, disputava com Luz del Fuego o papel de destaque entre as mais ousadas mulheres brasileiras de seu tempo. Foi a primeira a usar biquíni em Copacabana nos anos 50 e posar nua para uma foto que distribuiu como cartão natalino, um escândalo para a época.

Mas, foi em Luz del Fuego que o naturismo brasileiro teve sua mais dedicada entusiasta. Em 1950, Luz começou a reunir grupos de amigas e amigos em uma praia de difícil acesso conhecida hoje como Praia de Abricó(RJ), que desde 1994 oficialmente se destina à prática do naturismo, sendo então presa várias vezes. Percebendo que o nascente naturismo brasileiro necessitava de bases teóricas e filosóficas, publicou o livro A Verdade Nua e, com a renda obtida em sua venda, arrendou da Marinha a ilha Tapuama de Centro, com oito mil metros quadrados, nas proximidades de Niterói, rebatizada de Ilha do Sol, onde instalou a sede do Clube Naturalista Brasileiro em 1954, o primeiro desse gênero na América Latina, um ano após a criação da Federação Internacional de Naturismo(INF-FNI) na Europa. Na mesma década, funda o Partido Naturalista Brasileiro e se candidata a deputada federal sem interesse eleitoral, somente para chamar a atenção e fomentar o debate sobre o tema. A partir da segunda metade dos anos 50, a Ilha do Sol, apesar de não estar incluída nos roteiros turísticos oficiais, transformou-se em uma das maiores atrações do Rio de Janeiro, sendo visitada por intelectuais, astros e estrelas do cinema, como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Power, César Romero e personalidades da vida nacional que a frequentavam secretamente. A nudez total, a alimentação vegetariana e a proibição de fumo e álcool eram obrigatórias na Ilha do Sol, e a ninguém era permitido desembarcar sem deixar no píer as suas roupas, porque o pensamento de Luz era o de que “o nudista é uma pessoa que acredita não ser a indumentária uma peça necessária à moralidade do corpo. Não é concebível aceitar-se que o corpo tenha partes indecentes, que precisam ser escondidas”. Por essa razão, todo o dia 21 de Fevereiro, data do nascimento de Luz Del Fuego, é comemorado o Dia Nacional do Naturismo no Brasil.
Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo – Goiasnat.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Memórias do subdesenvolvimento no Haiti

Por Laércio Júlio da Silva

23/01/2010

Acreditando piamente que tinha finalmente chegado as Índias, o navegador Cristovão Colombo, em 1492, resolve circundar uma ilha que ele mesmo batizou de Hispaniola. Pouco mais de 200 anos depois de sua façanha, quase toda a população nativa havia desaparecido escravizada ou morta pelos invasores espanhóis. A parte ocidental da ilha com poucas terras férteis onde fica hoje o Haiti foi cedida à França pela Espanha em 1697. A outra parte ficou sendo o que hoje conhecemos como República Dominicana, com terras mais aráveis, mas na época menosprezadas pelos dominadores espanhóis. Mesmo assim no século 18, a região foi a mais próspera colônia francesa na América, fruto da cultura da cana, do café, do desmatamento e da escravidão africana. O Haiti foi o primeiro país latino-americano a declarar-se independente, a primeira nação das Américas a abolir a escravidão e hoje é o país mais pobre do continente. Após uma revolta de escravos, a servidão foi abolida em 1794. Nesse mesmo ano, a França passou a dominar toda a ilha.

Financiados pelos ingleses e espanhóis, inimigos dos franceses, em 1801, negros e mulatos se unem sob a liderança de Toussaint l’Ouverture, um escravo que aprendera a ler e adquirira certa cultura intelectual, tornando-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses, episódio brilhantemente retratado no filme Queimada (1969), do diretor Giulio Petercorvo. A ação do filme decorre num ilha ficcional nas Caraíbas, o enredo é baseado, parcialmente, na história do Haiti. O ator Marlon Brando interpreta um agente inglês infiltrado nas colônias portuguesas e espanholas oferecendo dinheiro e apoio para uma revolução que favoreça interesses imperialistas as custas do sangue da população local. O filme utiliza-se de mensagem política direta, mostrando a fundo o processo de manipulação da classe dominante e por isso despertou a ira dos censores da ditadura militar brasileira, sendo na época proibido de ser exibido em nossas terras.

Depois de 1804, para que o exemplo de fundação da primeira nação americana livre da escravidão não contaminasse as Américas, os escravistas europeus e estadunidenses mantiveram o Haiti sob bloqueio comercial por 60 anos no intuito de estrangular a liberdade conquistada a duras penas. Conhecedor dessa tradição libertária, em 1815, Simon Bolívar refugiou-se no Haiti após o fracasso de sua primeira tentativa de luta contra os espanhóis. Recebeu apoio, dinheiro, armas e pessoal militar com a única condição de que abolisse a escravidão nas terras que libertasse. O bloqueio só teve fim quando o Haiti concordou em assinar um tratado draconiano pelo qual seu país pagaria à França uma indenização vampiresca de 150 milhões de francos.

Entre vários golpes, insurreições e instabilidades econômicas chegamos ao ano de 1950 com a eleição do médico François Duvalier, conhecido como Papa Doc, que junto com seu filho Baby Doc administram uma ditadura baseada no terror e apoiada militarmente pelos Estados Unidos até 1986. Esquadrões da morte, os tontons macoutes (bichos-papões), instauram no país um regime policial. O país sofre novo isolamento internacional, que empobrece sistematicamente a população até que novas manifestações populares expulsam os tiranos. Seguem-se novas eleições e outras deposições até a presidência de Jean-Bertrand Aristide, em 1990. Apeado do poder pelos militares e em meio a uma catástrofe gerada por um furacão que devasta a ilha, a situação é agravada pela decisão do Congresso dos Estados Unidos de não enviar dinheiro para minimizar a tragédia. Em vão, Aristide cobra da França uma indenização de 20 bilhões de dólares pelos 107 anos de escravidão sofrida pelo povo, já que atualmente 80% da população vive abaixo da linha da pobreza. Por considerar a situação uma “ameaça à paz e à segurança da região”, o Conselho de Segurança da ONU, dominado pelos EUA, estabelece a Missão de Paz das Nações Unidas para a “estabilização” do Haiti. Com o objetivo de garantir a ordem, 9.000 soldados de diversas nações, entre eles 1.300 brasileiros, estão até hoje ocupando o país. Ao aceitar o convite para capitanear as forças de paz, o Brasil tenta provar que está apto a ocupar uma vaga no Conselho de Segurança, grupo de elite da ONU, a mesma que considerou o sismo geológico acontecido há poucos dias o pior já enfrentado desde sua criação em 1945. A ONU anunciou que enviará mais militares para conter o caos instalado pela fome e o desespero da população, mas é importante salientar a afirmação do deputado Fernando Gabeira antes da tragédia: “O Haiti não necessita de tropas, e sim de sementes...” Constrangido, o atual presidente norte-americano, Barack Obama, que é de ascendência africana como 95% da população haitiana, admitiu logo após o trágico terremoto do último dia 12 que o povo haitiano não seria esquecido, obrigando a comunidade internacional a refletir sobre a responsabilidade dos países que secularmente exploraram e abandonaram o Haiti. Esperamos que essas palavras se traduzam em ações sem o interesse da dominação.

Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.

www.goiasnat.com.br

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Passando suas férias ao natural

Por Laércio Júlio da Silva

04/01/2010

Janeiro é tipicamente um mês de férias para muita gente no hemisfério sul. No Brasil confunde-se com a chegada do verão e a possibilidade de aproveitar melhor os prazeres da vida em grande estilo. Para a maioria das pessoas, sair de casa e encarar o sol batendo no corpo, exorcizando-se totalmente das obrigações do trabalho no mais completo ócio, aproxima-se do ideal de lazer naturista.

A mais famosa fábrica de refrigerantes estampou por algum tempo na TV um comercial em que um homem na “melhor idade” refletia sobre os sonhos que ainda gostaria de realizar. Naturalmente, um deles era o prazer de degustar sempre o referido refrigerante, o interessante é que entre uma e outra fantasia, havia o introvertido desejo se tornar um naturista!

Sendo assim, convido o leitor a não esperar muito tempo por esse dia, passe um período de férias especial e marcante em sua vida experimentando o descanso como você veio ao mundo. Além da proposta filosófica, o turismo naturista é hoje um fato e reserva gratas surpresas aos seus praticantes em praias e clubes espalhados pelo país. Agraciado pelos trópicos, o Brasil é tido como um dos países que apresenta melhores condições para o desenvolvimento do naturismo: clima quente privilegiado por uma natureza exuberantemente bela.

A Federação Brasileira de Naturismo - FBrN(www.fbrn.org.br) possui hoje vinte entidades filiadas, devidamente cadastradas, sendo dez associações sem fins lucrativo, três comunidades naturistas, quatro pousadas, uma área de preservação ambiental, duas mídias naturistas e uma agência de viagem. No tocante ao turismo naturista existem várias opções de lazer e entretenimento para toda a família em praias e clubes com alguma estrutura de hospedagem. Oito praias no Brasil são regulamentadas para a prática do naturismo através de decretos municipais, haja vista que a Lei do Naturismo (Projeto de Lei da Câmara nº 13) ainda não foi aprovada, estando lamentávelmente desde o ano 2000 para entrar na pauta do Senado Federal. A maioria destas praias tem uma ou mais associações ambientalistas sem fins lucrativos, algumas em parceria com o poder público, administrando o local e garantindo o cumprimento do Código de Ética Naturista.

Ainda existem vários mitos entre os não naturistas. Um deles acredita que o naturismo somente é praticado no litoral e desconhece a existência da Colina do Sol(www.colinadosol.com.br), condomínio naturista no interior do Rio Grande do Sul, local onde será realizado em Março deste ano o III Encontro Latino Americano de Naturismo, aberto a todos os interessados em participar. No centro-oeste a Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat (www.goiasnat.com.br) e o Clube Naturista do Planalto Central, o Planat (www.planat.org.br) promove reuniões mensais para adeptos da prática.

Falando em praias, infelizmente não há espaço para comentar todas, a mais famosa é a Praia do Pinho (www.praiadopinho.com.br), no Balneário Comburiú em SC. Berço da reestruturação do naturismo no Brasil depois do período ditatorial, conta com boa estrutura de hospedagem e camping. Igualmente famosa depois do 21º Congresso Internacional de Naturismo realizado lá, a Praia de Tambaba(www.tambaba.com.br) no nordeste é rica em belezas naturais e conta também com pousadas e camping no local.

Há ainda a Praia de Barra Seca em Linhares – ES. (www.barraseca.com.br), a mais próxima do centro-oeste e a Praia do Abricó (www.anabrico.com) na cidade do Rio de Janeiro, palco de várias lutas ambientalistas, sendo uma área de proteção ambiental dentro da reserva biológica do Parque de Grumari.

É comum o cidadão iniciar-se na prática do naturismo fora de seu estado por vários motivos. A maioria volta maravilhada com o ambiente fraternal com que são recebidos por frequentadores em locais muitas vezes desconhecidos e quando retornam a sua origem, acabam aderindo à associação local. Os naturistas formam uma grande família!

São várias as opções, portanto nessas férias, se você é amante da natureza do tipo que não quer se preocupar com malas ou “o que vestir na ocasião”: somente uma toalha basta! Convide sua família a realizar uma experiência inesquecível e fascinante. Comece o ano diferente, passe suas férias ao natural!

Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.

www.goiasnat.com.br


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Construindo a Cidadania Planetária em 2010

Por Laércio Júlio da Silva 

30/12/2009
Esperamos que 2010 seja o ano em que a cidadania planetária se constitua em um novo recomeço para a humanidade como a conhecemos atualmente. Existem vários grupos atuantes espalhados pela sociedade que pactuam das mesmas idéias convergentes: a de que o mundo só pode ser salvo através de uma nova concepção envolvendo a cultura da paz e a união entre os povos. Superando diferenças, um movimento heterogêneo está se formando com as mesmas conclusões. São entidades religiosas, filosóficas e científicas de todas as matizes comungando do princípio que homens e mulheres do Século XXI devam estar irmanados no antigo conceito de aldeia global que só agora começa a se concretizar com o advento da tecnologia presente na telefonia móvel e na internet. Quando esse conceito foi formulado não se imaginava a que ponto chegaria à derrubada das fronteiras com a comunicação. Somos hoje cidadãos do mundo ligados pela tecnologia virtual da rede de computadores e como tal devemos agir rumo ao desenvolvimento real de um novo conceito de cidadania. Cidadania que só deverá ser exercida em sua plenitude quando as camadas menos favorecidas estiverem participando técnica e conscientemente da globalização do conhecimento e de toda a sabedoria universalizada.

Sabemos hoje que cientificamente tudo que existe no universo é feito da mesma matéria química. Seja mineral, vegetal ou animal a sua totalidade é constituída de elementos presentes e comuns a todos. Interligados, sabemos também que somos parte do cosmos e o “bater das asas de uma borboleta aqui pode provocar um furação do outro lado do mundo”. Obviamente tratando-se de uma alegoria, o conceito sintetiza a importância das ações coletivas e a responsabilidade que temos sobre o chão que pisamos.

A noção de cidadania planetária surge a partir de uma concepção onde se afirma que, independente da nacionalidade, habitamos o mesmo planeta ao qual devemos cuidar e compartilharmos princípios e valores éticos próprios de uma comunidade humana que atualmente vive o desafio de contradições como é o caso da alta tecnologia convivendo com a pobreza endêmica. E a pergunta que não quer calar é: se somos capazes de chegar a Lua e construirmos computadores infinitamente potentes, porque não conseguimos resolver os problemas sociais comuns a todos os povos? A melhor resposta está na falta de uma consciência planetária. Razão racional e lógica que entenda que todas as raças são irmãs comprovadas cientificamente e que não existem diferenças a não ser as criadas pelo próprio homem.

Um ser que compartilha e que cuida. Esse é o resultado ideal da educação voltada para a cidadania planetária. Portanto,  o desvelar,  a  ética  e  o cuidado com o meio ambiente se  apresentam  como norteadoras destes novos  rumos, das  transformações profundas que necessáriamente operarão os caminhos da espécie humana.

Devemos estar conscientes de que a edificação de uma sociedade mais justa depende da transformação individual de cada ser humano, transformação esta comprometida com o amor, a inteligência e a solidariedade direcionadas para a construção de uma sociedade livre, igualitária, fraterna, buscando proteger a vida planetária e construindo uma organização social transformadora e digna, reconhecendo que minha família é a humanidade e que estamos igualmente irmanado com todos os seres viventes.

O ano de 2010 pode ser o início de um novo paradigma para a humanidade. Desejamos a todos e a todas uma nova e profunda reflexão, sendo o ano vindouro repleto de idéias e ações por um mundo melhor que sabemos ser possível.

“Haverá lugar para os pecadores desesperados que vêm para ferir a humanidade pelas suas próprias crenças? Um só amor! Um só coração! Vamos seguir juntos para ficarmos bem...” (One Love – Bob Marley).

Um feliz 2010 ecologicamente sustentável para todos!


Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.