quinta-feira, 18 de março de 2010

Mulher e Naturismo II

O texto é uma resposta ao comentário colocado em Mulher e Naturismo - comentário em aqui nesse blog - e reproduzido abaixo.

Blogger daniel gambin disse...

Ariana,
Todo naturista, homem ou mulher, gostaria de ver equilibrada a participação de ambos os sexos na vida naturista. Porem essa falta de participação da mulher parece ser mais um motivo de dor para todos. No meu comentário eu coloquei que "as mulheres são objeto sexual para os homens" no sentido de "objeto de desejo". Não cheguei a pensar no sentido de "objeto de propriedade" do que fala o psicólogo muito famoso, mas que não citou o nome. Essa outra hipótese não me parece muito acertada, pois fala de mulheres anuladas pela relação matrimônial. Isso não explica a falta de mulheres solteiras e livres no naturismo. Também não me consta que o casais naturistas sejam todos liberais e que não sejam ciumentos.
Eu penso que as dificuldades que o naturismo tem não é coisa dos homens ou das mulheres e sim das circunstâncias em que nos encontramos na sociedade.

Cordialmente,

Daniel

Caro Daniel Gambin


Nesse ponto concordo com você, as dificuldades que o naturismo tem não é coisa dos homens ou das mulheres e sim das circunstâncias em que nos encontramos na sociedade. Mas penso que como somos nós, homens e mulheres, que formamos a sociedade, temos ou pelo menos deveríamos ter a capacidade de contribuir de modo melhor para que essa "sociedade" evolua, e isso implica adotarmos hábitos e costumes mais modernos.


Nós mulheres conquistamos nosso espaço na sociedade, já podemos pensar por nós mesmas, votar, falar em público, escrever utilizando nosso próprio nome, apesar de ainda existirem mulheres que escrevem utilizando pseudônimos masculinos ou se escondendo atrás dos homens, maridos e amantes.


Com relação ao ponto de sermos objeto sexual para os homens, no sentido de objeto de desejo e não no sentido de objeto de propriedade; sinto discordar, pois o homem sempre quis e ainda quer "possuir"( do latim.... bla bla...ter posse) o que deseja, são coisas que para mim estão bem interligadas.


Não citei o nome do psicólogo famoso, Sr. Daniel, porque não pretendia citar bibliografia que subjaz meus pensamentos, afinal não estamos aqui defendendo nenhuma tese de doutorado. Eu queria discutir o conceito dentro de uma dada situação.


Mas, voltando ao ponto das mulheres e o nu.....
Aqui na Holanda, sinto as coisas um pouco diferentes, as mulheres são bem mais independentes, se o marido quer sair com os amigos, etc.... ele vai; e ela também sai com as amigas quando quer e sem dar muita satisfação, ela apenas comunica que tem um compromisso e vai, sem precisar fazer um jantarzinho gostoso pro marido na noite anterior, para amaciar a carne, como costumamos dizer por ai, caso não me entenda, sem precisar seduzir o marido para deixá-la sair com as amigas, ou fazer alguma coisa sem ele, que não seja, mercado, ir a missa, etc.; aqui realmente temos os mesmos direitos.

Quando vou a um lugar aqui onde é permitido tirar a roupa, encontro também mais homens que mulheres, mas a diferença que vejo está na postura machista que não encontro por aqui. Estive uma vez em uma pequena cidade (chamada Winterswijk), lá temos uma grande lagoa e uma parte dela é destinado ao peladismo, claro que cheguei no meu lindo biquíni e canga última moda; afinal também gosto de me exibir um pouco. Quando vi que era permitido ficar nua, fiquei. Me deitei e estava curtindo um maravilhoso sol quando vi chegar uma mãe com suas quatro crianças, simplesmente sem a presença do marido para escoltá-la ou sei lá o quê. Ela ficou super à vontade, triangulando pelos vários grupos que estavam lá, sem nenhuma cerimônia. Depois foram chegando mais mulheres sozinhas, ou em grupos.....claro que éramos a minoria, o motivo realmente podem ser vários, mas não estou mais me importando muito com isso, o fato é que muitas das mulheres solteiras e independentes não estão indo aos lugares de nudismo, por causa dessa cabeça machista que ainda grita na mentalidade humana, e as faz querer desfilar sua beleza em outros lugares, onde o homem não mostre seu crachá.


Muitos lugares de nudismo no Brasil só permite a entrada de casais, por que será? Para tentar um equilíbrio ou para não ter ninguém sozinho cobiçando o que está em par?

Tenho conversado bastante com as pessoas idosas daqui, pois quero colher-lhes as experientes impressões. Tivemos em todo lugar do mundo o movimento feminista e aqui me parece ter sido bem forte. Naquela época, os homens chegaram a não poder olhar para as mulheres na rua, elas botaram pra quebrar mesmo. Hoje vejo um certo equilíbrio entre as duas partes, as mulheres têm uma postura mais firme e consequentemente os homens, uma postura mais respeitosa para conosco, sem contar na educação e gentileza, sem ter por traz o desejo de sedução.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Ter vergonha de seu próprio corpo é Lei obrigatória para todos?

Por Delmonte Vicencio

 
Engraçado, estava vendo algumas reportagens sobre abordagens pela polícia de pessoas que simplesmente estavam nuas em praias e foram abordadas, se alegando que teriam que ter vergonha de sua nudez e se vestirem. Os próprios repórteres se indignaram com a falta de vergonha dessas pessoas. Entendi que todo mundo deve ter vergonha da nudez senão vai preso e é condenado pela maioria das pessoas.
O que eu não entendo é onde estão nossos direitos humanos universais de pensar e agir, será que não existem aqueles que há muito já se desvincularam desse sistema cheio de malícias e maldades e também tem todo o direito de usufruir da natureza divina que foi dada para todos?
A massa te oprime e te obriga a pensar e agir como eles navegando no mundo do consumo e consumismo, e onde fica nosso livre arbítrio de pensar e viver? Fala-se com tanta naturalidade que tais pessoas não têm um pingo de vergonha na cara em ficar sem roupas na frente dos outros quando todos deveriam sim ter vergonha da atual situação brasileira de desigualdades e de muitos até miseráveis sem nenhuma qualidade de vida para sobreviver. Por  que temos que ter vergonha do que é tão natural e normal? Eu não tenho nenhuma vergonha de estar pelado na frente de quem quer que seja, mas sinto muita vergonha de ver que em meu país existem tantas pessoas que muitas vezes não têm nem o que comer. Deveríamos sim, cair matando em cima daqueles que usam e abusam do poder, daqueles que são os propulsores da grande miséria no Brasil. É disso que devemos nos envergonhar e fazer de tudo para mudar, não cair matando em cima de pessoas que simplesmente eliminaram de suas vidas esse sentimento de vergonha do natural, vergonha do que foi feito por Deus e como todos dizem à sua própria imagem.
Acordai brasileiras e brasileiros, já está mais que na hora de se ver o mundo de outra forma e não da forma como nos foi imposto desde que nascemos presos a dogmas religiosos criados pelo homem. Como todos ouvem e dão total crédito à voz do Papa, João Paulo II escreveu isto:
O decoro sexual, não pode, portanto, de nenhuma forma, ser associada ao uso de vestimenta, nem a sem-vergonhice com a ausência de roupa ou com a total ou parcial nudez” (2). Há circunstâncias nas quais a nudez não significa ausência de decoro... a nudez, como tal, não deve ser equiparada ao descaramento físico. A ausência de decoro está presente apenas quando a nudez desempenha um papel negativo no que diz respeito ao valor da pessoa, (3)quando o seu propósito é o de resultar em apetite sexual, na qual a pessoa é colocada na posição de objeto de prazer” (4) “O corpo humano não é, em si mesmo, vergonhoso, nem, pelas mesmas razões, estão as reações sensuais (5) e a sensualidade humana em geral. A ausência de vergonha (assim como a vergonha e o decoro) é uma função do íntimo de uma pessoa”.

Portanto volto ao título deste documento, Ter vergonha de seu corpo é obrigatório a todos?
Todos têm que pensar dessa maneira? E quem pensar diferente? Deve ser punido pelas leis vigentes? Vivemos ou não uma democracia?
Reflitam e vamos mudar nossas leis e conceitos, temos que progredir, olhar para o que é necessário fazer. Ter sim vergonha do que fazemos de errado.
autor: Delmonte Vicencio

domingo, 14 de março de 2010

Ainda sobre as mulheres: o mito Elvira Pagã

Por Laércio Júlio da Silva


14 de Março de 2010

Como março é considerado o mês das mulheres, é pertinente continuar no mesmo assunto. Já muito escrevi sobre a importância das mulheres no movimento naturista, sua contribuição para com o feminismo e a luta pelo resgate do seu próprio corpo. A principal delas, ideóloga e militante responsável pelo que existe na atualidade em termos de naturismo no Brasil, foi sem dúvida nenhuma Dora Vivacqua (Luz Del Fuego, 1917-1967). Mas existiu outra personalidade controvertida e escandalosa com imenso destaque nos anais do naturismo e do feminismo contemporâneo chamada Elvira Pagã. Criatura extraordinariamente inquieta, veio ao mundo para sacudir as entranhas de uma sociedade extremamente conservadora que considerava qualquer artista a “escória da humanidade...”
Nascida Elvira Olivieri Cozzolino (1920-2003) foi protagonista de um dos maiores escandalos da época. Inventora ou descobridora inusitada do biquíni brasileiro, no verão quente de 1949 em plena Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro uma multidão delirante não tirava os olhos do carro alegórico em que ela se apresentava envolta em frutas tropicais. No destaque, como uma deusa do pecado, a Rainha do Carnaval na época, exibia um corpo maravilhoso num ousado traje de banho dourado. Depois que sua capa estilo toureiro fora arrancada pelos fãs ensandecidos, ela rasgara um maiô adaptando o modelo “duas peças” usado no teatro rebolado, lançando oficialmente o biquíni num Brasil repressor e moralista. A plebe gritava por todos os lados: “Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!”. Vem dai o nome artístico.
Foi uma das primeiras artistas brasileiras a explorar o impacto do nudismo, disputando com Luz del Fuego o espaço nos noticiários escandalosos da época. Ativista cultural fez oito filmes, como O Bobo do Rei (1936), Cidade-Mulher (1936), Alô, Alô Carnaval (1936), Dominó Negro (1939), Laranja-da-China (1940), Carnaval no Fogo (1949), Aviso aos Navegantes (1950) e Écharpe de Seda (1950). Rainha do Carnaval durante muitos anos ao longo da década de 50, cantora e compositora lançou treze discos junto com sua irmã. Elvira Pagã foi uma figura emblemática e representante maior da fase do Teatro de Revista brasileiro. Escreveu alguns livros, entre eles “Revelações” e “Vida e Morte”, chegando inclusive a ocupar a cadeira de número 12 da Academia Paulista de Letras. Em 1949 ajudou a formar a “Companhia Juan Daniel”, e construiu seu próprio teatro, O Follies, cujo imóvel pertencia a Antônio Carreira. Estreou com a apresentação de espetáculos que incluíam o nudismo com a participação de Luz del Fuego.
A jornalista e professora de comunicação pela UFRGS, Doris Fagundes Haussen desenvolveu um artigo intitulado “A Revista do Rádio através de seus editoriais (década de 50)”. Nesse trabalho, ela relata um fato curioso que demonstrava uma tentativa da revista em evidenciar uma vida “famíliar” e “pasteurizada” para a vedete Elvira Pagã, adepta do nudismo que viria mais tarde a ser intitulado naturismo. Na seção da revista n° 222, “Minha casa é assim”, foram publicadas uma série de fotos da artista, vestida, mostrando a sala, o quarto e a cozinha, terminando no banheiro com a vedete enrolada em uma toalha, dentro da banheira, junto a uma bolsa de crocodilo, descrita como “para guarda de pertences de banho”. Foi a primeira mulher brasileira a fazer plástica nos seios numa época anterior a moda do silicone. Ficou conhecida por ter posado nua e distribuído a foto como cartão de Natal, sendo na época presa e acusada de “atentado ao pudor”.
A partir dos anos 70, nos moldes do conservadorismo imposto pela chamada “marcha da família”, visada e perseguida pela ditadura que se instalara no país, abandonou a rotina de evidências tornando-se reclusa. Terminou seus dias como pintora e adepta do esoterismo. Morreu aos 83 anos de idade depois de uma vida intensamente polêmica e produtiva.

Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo, o Goiasnat.


www.goiasnat.com.br



"Não ande na minha frente, eu posso não te seguir. Não ande atrás de mim, pode ser que eu não te guie. Caminhe junto a mim e seja meu amigo." Albert Camus