segunda-feira, 19 de setembro de 2011
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
E QUANDO O ATOR FICA NU ?
Por Rosana Bentto
Dançar sentimentos, buscar organicidade, doar-se sem restrição e sem medo, comungar com a platéia, criar... Numa tentativa solitária de encontrar-se a si mesmo, esse artista mergulha em seu universo para expandi-lo ao máximo e ofertar o seu melhor. Disso o ator/atriz sabe, mas as suas limitações estão o tempo todo gritando para serem superadas. E quando a ator/atriz precisa ficar nu? O que acontece?Quando o ator/atriz sabe que fará personagem que exibirá sua nudez, fica tranquilo porque diz estar protegido pela personagem, que tem um motivo para ficar nu, ao passo que na vida real não. É um argumento a se pensar já que o ator busca cada vez mais aproximar a naturalidade com que age na vida real da naturalidade durante representação no palco.
Já presenciei situações em que amigos atores foram convidados a conhecer espaços naturistas e eles ficaram encabulados. Sentiram-se despreparados para ficar pelados na frente dos outros. Despreparados enquanto pessoas para deixar a roupa e se libertar. Questiono essa desproteção que persegue a pessoa do ator. De onde vem essa sensação de desproteção? De onde vem esse medo de estar à vontade com o próprio universo que lhe foi dado - seu corpo? Acredito que venha de fora, que venha do pensamento sobre o que os outros vão pensar, o que os outros vão achar de mim. Sempre os outros. Como diz um famoso psicólogo "como damos nossos poderes para os outros! como os outros tornam-se grandes em nossas vidas! cacete!"
Essa força dada de mão beijada aos outros é algo que levamos anos aprendendo, levam tempo nos ensinando isso, algo tão bem trabalhado na mente de todo mundo que depois de uma certa idade ninguém precisa fazer mais nada, cada um se encarrega de agir como nos ensinaram. Aí é um tal de um vigiar o outro, um policiar o outro, e outro já penetrou nosso universo de modo tão profundo, ele está tão vivo dentro de nós que nosso organismo começa a reagir a esse outro por ele mesmo, além de as pessoas ensinarem essa droga de maneira de viver aos descendentes, aos discípulos, etc. fazendo com que a roda nunca pare. Quanta meleca. E, obviamente, pelo fato de o ator ser uma pessoa que trabalha com emoções, sensações, tudo isso é extremamente negativo pra ele, o quanto antes se libertar disso melhor, o quanto antes se desvincular dessa roda e observar a si mesmo e o cotidiano de modo diferente melhor. E tirar a roupa em vários sentidos é um passo para trabalhar essas questões. Vamos ficar nus?
publicado originalmente em http://atrizrosanabentto.blogspot.com/2010/01/quando-o-ator-vai-ficar-nu.html
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O ATOR E O NATURISMO
Pelo que compreendi, na visão de Luís Otávio Burnier, o ator precisa estar o mais próximo possível da natureza.
Uma cidade pequena, com rios limpos, cachoeiras, abundância de árvores e pássaros, presença de animais, pouco ruído humano e muitos sons da natureza, ou então um espaço onde tudo isso foi preservado ou organizado para receber pessoas de cidades grandes onde o barulho humano predomina. Num lugar onde o silêncio (ausência de barulho de máquinas operadas pelo homem) é o maioral, é desse lugar que Otávio fala. E daí? Por que relacionar isso com naturistas e então com os atores?
Bem, num espaço onde a natureza pode se manifestar, quando digo natureza digo tanto do ser humano quanto vegetais e animais, o movimento pode ser percebido com mais atenção. E, como o foco aqui é o naturista e o ator, a movimentação do corpo humano é que é observada com mais carinho. Essa mobilidade pode ser aproximada do movimento das águas, dos ventos, da liberdade dos pássaros. Os cinco sentidos libertam-se. Logo, é possível sentir essa natureza tocando o corpo com mais propriedade, pode-se sentir esse contato com o belo: sentir o calor do sol, a água da chuva ou o vento tocando a pele; sentir aromas de flores, terra molhada ou simplesmente de um gramado que acabou de ser cortado; ouvir o cantar dos pássaros, do balançar das folhagens, da água da cachoeira; ou ainda não ouvir nada e estar em perfeita comunicação com toda essa natureza por meio do silêncio enquanto se faz parte desse cenário. Ao perceber que como ser humano fazemos parte desse cenário, automaticamente nosso organismo, nosso corpo, com os sentidos aguçados, responde com alegria, agradece o prazer recebido por meio de uma "comunicação bela, singela e silenciosa. Sentida com a alma e com o corpo" (L.O.B). E aí aparece a comunhão. O humano em comunhão com a natureza. Não falo de algo que só buda consegue. Isso de que Otávio fala, qualquer pessoa que saia dessa piração que é a cidade grande e vá para um lugar mais afastado, silencioso, com uma natureza mais expressiva, sente, só depende de como essa pessoa vai aproveitar isso. As vezes ela não racionaliza a coisa, apenas sente, outras vezes ela sente e pensa, reflete sobre isso e começa a perceber como o organismo responde à agitação e à calmaria, como o corpo responde à beleza e à feiúra dos ambientes, como o corpo recebe situações agradáveis e rejeita outras desagradáveis, etc.
Todo esse contexto de maior aproximação do homem com a natureza, nos dias de hoje parece ser um privilégio do naturista (aquele que segue toda uma filosofia e não aquele que apenas tira a roupa e já acha que é deus), ele é que está alguns passos adiante quando se fala em entrar em comunhão com a natureza. E o naturista o faz desnudo. Então parece adiantar-se em dois sentidos: primeiro despe-se com facilidade das roupas, e das máscaras sociais, e segundo harmoniza-se com a natureza, e com sua própria natureza.
Onde fica o ator nessa história? bom, esse é o indivíduo cujo corpo é o item mais importante na execução de sua tarefa. E, para que represente personagens da maneira mais adequada possível, para que seu corpo/instrumento esteja o mais afinado possível, deverá conhecê-lo muito bem, saber o mais que puder sobre as ações e reações de seu corpo diante de situções diversas, ou então estar o mais preparado possível para deixar seu corpo agir naturalmente, ouvindo, reconhecendo e respeitatndo tais reações (diante de: frio, calor, alegria, ódio, raiva, tristeza, compaixão, amor, etc.)
Nesse sentido, o ator pode ser aproximado do naturista, não para ser comparado positiva o negativamente, se é mais ou menos em si, que o naturista, mas para se ver que é positivo para o ator, frequentar ambientes naturistas por causa da harmonia com a natureza (vegetal, animal e humana). (Isso se não tiver um Zé mané que leve auqueles axés pra tocar em último volume. Aí eu fico impaciente. Tá vendo? Uma reação natural do meu corpo. Ele quer tranquilidade e calmaria e de repente um axé no último volume. Irritações à parte.) O ambiente naturista é praticamente um laboratório para o ator, tanto para recarregar suas energias quanto para observar esses aspectos relacionados ao trabalho de conhecimento e reconhecimento do próprio corpo.