sábado, 5 de setembro de 2009
A DESVALORIZAÇÃO INCONSCIENTEMENTE PERMITIDA
Por muitas vezes já me diverti olhando na TV as famosas vídeo-cacetadas, com o tempo parei para pensar um pouco e cheguei à conclusão que estava rindo de uma fatalidade de alguém, já que muitos até se machucavam com suas quedas. Inconscientemente estava dando valor às quedas espetaculares em detrimento ao ser humano que a sofria.
Assim também é a questão dos animais em circos e rodeios, não nos importamos com os sofrimentos que lhes causamos, achamos muito bonitos até termos a consciência do que realmente estamos fazendo. Creio, inclusive, que muito artistas de músicas sertanejas terão até que mudar a tônica “Quem gosta de rodeios, não dá prá ficar parado, sou cowboy e boiadeiro, tem mulher prá todo lado”.
Por falar em mulher prá todo lado, num dia destes uma mãe toda cheia de orgulho me apresentava seu filho como o terror das menininhas, e que no dia em que ele nasceu só tinha meninas no berçário e que estas teriam que se cuidar. Enfim, todos os comentários que, na realidade, desvalorizava a figura feminina que ainda não era percebido por ela. Dizia ela na verdade que a) Tinham muitas meninas para o seu único filho; b) Que ele poderia conquistar muitas senão todas as garotas do seu círculo de amizade; c) As meninas estavam disponíveis para o menino garanhão; d) Que ele poderia transar com todas elas se assim o quisesse.
Todas as qualificações eram no sentido de conquista e afirmação da sexualidade do menino, e assim segue a educação pela sua infância e juventude. A própria mulher inconscientemente se subjugando aos desejos masculinos e se colocando numa posição de inferioridade afirmando as disponibilidades descritas acima.
O papel da mulher nos dias atuais mudou, ela tem uma maior participação no orçamento familiar, participa ativamente em diversos setores econômicos e políticos do país e conquistaram o direito de atuarem em vários segmentos no mercado de trabalho que antes eram destinados somente aos homens. No entanto, ainda se acham numa posição de inferioridade quando o assunto refere-se à sua sexualidade.
O naturismo permite a aproximação da igualdade entre ambos os sexos, ainda não reconhecido pelo lado feminino, são tratadas com mais respeito ‘Coloque um corpo nu no meio naturista e um corpo nu no meio de vestidos. Quem se comportará de maneira mais decorosa, o naturista ou o vestido? Quem se comportará de maneira mais animalesca, o naturista ou o vestido?”.
Como mudar estes valores? Somente através da conscientização e informação para as crianças e jovens, e a educação é um dos pilares que deverá sustentar esta nova postura do ser humano.
Reconhecendo a importância da educação na formação de opinião e da consciência de diversas agressões que causamos à natureza, a Associação Amigos dos Animais do Espírito Santo (AMAES) realizou um curso de uma semana para treinamento de instrutores para proferirem palestras nas escolas, um projeto da World Society for the Protection of Animals (WSPA) com atuação em diversos países na Europa e na América Latina. E os naturistas como irão chegar nesta clientela (crianças e jovens)? Se os próprios pais, na maioria das vezes, não conhecem este estilo de vida e desconhecem os benefícios que poderíamos ter quando nos tornamos conscientes da nossa natureza defendida com respeito e vista de forma natural. No estágio cultural em que vivemos, acho pouco provável que tais palestras teriam algum apoio das comunidades escolares, acredito mais na viabilidade destas serem realizadas para alunos de faculdades que, em sua maioria, serão os futuros pais que poderiam transmitir aos seus filhos outros valores sociais.
É preciso ensinar os adultos a pensarem como crianças e os tornarem conscientes da importância da auto-aceitação. A consciência da nossa própria natureza é um caminho aberto para realização da felicidade porque não será preciso esconder o que somos, teríamos uma sociedade menos agressiva, mais humana.
No artigo “Naturismo e Fé” Pierre E.H. Demouliere conclui “É justo ser naturista e cristão. A fé esclarece o naturismo e naturismo fortifica a fé”.
A reintegração do homem com a sua natureza, distanciada principalmente pelos falsos valores até hoje colocadas na sua formação, requer tempo, que é algo que não temos muito diante de tantas agressões que causamos à natureza por implantar um modelo econômico que pecou por não considerar a espiritualidade do ser humano, por não considerar o respeito como algo que teria que ser ensinado também nas escolas, por não considerar a nossa dependência com outros seres viventes como fator determinante da nossa própria sobrevivência.
Num texto escrito pelo Ven. Dr K Sri Dhammananda sobre atitude Budhista quanto a vida animal diz de uma forma bem clara “A crueldade do homem em relação aos animais é uma outra expressão de sua ganância incontrolável. Hoje destruímos os animais e os privamos de seus direitos naturais para nossa conveniência. Mas já estamos começando a pagar o preço por esse ato egoísta e cruel. Nosso meio ambiente está ameaçado e se não tomarmos medidas severas para a sobrevivência de outras criaturas, nossa própria existência na terra pode não estar garantida.”
Não aprendemos respeito com a nossa própria natureza, como iremos respeitar a natureza de outros seres viventes? O naturismo certamente poderia contribuir muito para uma nova postura dos valores sociais, só precisamos ser conscientes desta responsabilidade no lugar de consentir a desvalorização de nosso corpo como se fosse somente visto para prazeres sexuais. Sinceramente, sou mais do que isso.
Evandro Telles
05/09/09
terça-feira, 1 de setembro de 2009
CONTINUO PREFERINDO O PELADISMO
Olá! Depois de algum tempo...no quartel de Abrantes...
Por conta de trabalhos, viagens de trabalho, mais trabalho e mais trabalho acabei me distanciando da produção de textos escritos acerca do naturismo, mas tenho acompanhado o blog onde se pode ler sobre toda falta de vergonha na cara que certos naturistas têm demonstrado em suas atitudes em nome do naturismo.
Sabe, pessoal, tenho me questionado muito sobre as questões que envolvem a nudez já que naturismo inclui estar pelado, como: nudez, sexualidade e sensualidade, roupa, poder, autoridade e autoritarismo, vergonha, aceitação, respeito, solidariedade, diversidade, pluralidade cultural, família, igualdade, direitos, etc... e muitos outros muitos temas que se desenvolvidos poderiam gerar material de pesquisa para interessados no assunto.
Tenho muitas, mas muitas perguntas, mas respostas??! Bem, ainda nenhuma completa graças da Deus!!! Conheço gente que tem todas as respostas... mas não conta pra ninguém! Ê coisa feia!
Diante dessas inquietações e sabendo que haverá um grande churrasco em Tambaba no final do ano, será que nesse grande churrasco, à beira de uma praia liiiiiiinnnnda, de uma paisagem liiiinnnnnnnnnnnda, não se poderia gerar mesas de debates sobre esses assuntos? Será que não se deveria propor que fossem apresentadas comunicações para gerar conversas sobre o assunto? Será que não se deveria convidar pesquisadores para falar do assunto enfocando os vários aspectos sobre os milhares de temas que rondam e estão nos subterrâneos do naturismo???? Será que não seria momento de apresentar documentários sobre o assunto? Apresentando história do naturismo? Fazendo comparações entre modos da prática naturista nos diversos países? Será que nesse grande churrasco onde as pessoas vão gastar a maior grana não seria um momento de mostrar que pode ser divertido conversar sobre temas que não se conversa em lugar nenhum?
Em vez de só a cúpula se reunir para conversar será que não deveria ter grupos de debates entre a cúpula e os mortais? E não somente grupo de debate entre os imortais? Será que chamar os peladistas para ir à Tambaba e não lhes permitir falar, será que isso não seria segregação? Será que deveria ter diversos momentos para vários tipos de debates? Será? Será? Será?
Sim, porque, você conversa sobre roupas ou não roupas com quem? Quantas pessoas que não falam sobre o assunto, optam por escrever? Para quê existem os encontros senão para discutir assuntos de interesse comum do grupo?
Os naturistas são o único grupo que se reúne para falar de tudo menos de temas ligados ao naturismo. É!!! Porque se reúnem para ficar pelado, para comer, beber, falar de futebol, de trabalho, de lugares lindos, ficar pelado, ficar pelado e mais pelado. Nunca ouvi ninguém falando sobre questões inquietantes, parece ser proibido falar de temas complexos e sempre que alguém joga um tema um pouquinho mais complexo, alguém dono da verdade, sabe aquele que tem todas as respostas? Então, esse cidadão aparece e encerra o debate. Puts que chato. É tão chato esse tal de naturismo... por isso prefiro continuar peladista. Ah, fico felicíssima em saber que cada dia que passa um grande número de pessoas está tomando consciência de que ficar pelado é apenas uma parte do naturismo, legal!
Mas insisto em sugerir que nesse grande churrasco que ocorrerá em Tambaba aproveite-se para dar oportunidade para todos os naturistas ricos ou pobres, pretos ou brancos, bonitos ou feios, gordos ou magros, perfeitos ou portadores de necessidades especiais, burros ou inteligentes, alegres ou depressivos, empregados ou desempregados, jovem ou velho, homem ou mulher... já que todo pessoas são pessoas e sem roupa então? Nem se fala, enfim. Que todas essas pessoas possam exprimir e conversar sobre temas ligados ao naturismo, já que nos demais encontros durante todo o resto do ano ele só vai se reunir pra comer churrasco e beber cerveja.
Se bem que, até pode ser legal que todo mundo cuide de tudo pra você. Que decidam para onde você deve ir, o que você deve comer, o que e quando você deve falar, o que você deve engolir, o que você deve saber, quantos pedágios você deve pagar apesar de já pagar inúmeros impostos, se você deve fumar ou não, se você deve beber ou não... infinitas as decisões que os outros tomam em seu lugar e... bom, jamais alguém estimula uma discussão para que se chegue a conclusões por si para que o próprio cidadão conclua que deva fazer isso ou aquilo porque está assumindo uma postura responsável...
Sabe, aqui na Holanda essa história de nudez é tão bem resolvida!!!!! Hum, que lugarzinho bão! Aqui não cheguei a conversar sobre os temas que me inquietam até por conta de dificuldade lingüísticas, mas é tudo tão realizado na prática que se não conversarmos não tem problema. Só que mesmo estando na Holanda, querendo retornar ao Brasil um dia, não consigo não lembrar do povo brasileiro, principalmente dos que estão engatinhando na questão "ficar pelado".
Enquanto não há naturismo no Brasil, eu descobri o peladismo e o adooooooooooooooooooro!!
sábado, 29 de agosto de 2009
A pretensa racionalidade do ser humano
Laércio Júlio da Silva
28/08/2009
"A idéia de achar graça na visão de animais selvagens coagidos a agir como desajeitados seres humanos, ou a excitação ao ver perigosas feras reduzidas a covardes retraídos por causa de um treinador com chicote em punho é primitiva e medieval. Tal visão de mundo advém do velho conceito de que somos superiores às outras espécies e que temos o direito de manter nosso domínio sobre elas. O primeiro auge desse conceito foi visto durante os massacres no circo romano e, desde então, tem sido mantido vivo através dos ensinamentos religiosos que insistem em colocar o gênero humano acima e apartado de todo o resto da criação" (Desmond Morris, zoólogo inglês autor do clássico livro O macaco nu, que fica aqui como sugestão de leitura sobre o tema no ano do segundo centenário de nascimento de Charles Darwin, 1809-1882).
A mortalidade de animais nos zoológicos de São Paulo e Goiânia tem chamado a atenção do Brasil para uma discussão permanentemente aberta no meio ambientalista: a prisão e escravização de animais em circos e zoológicos se fazem necessárias na atualidade?
Segundo uma definição clássica, a prisão de animais se justificaria pela função educativa das novas gerações, possibilidade de pesquisas científicas e a preservação de espécies ameaçadas de extinção.
No caso específico de circos, os animais são usados como exemplo da supremacia humana sobre as outras espécies vivas, demonstrando superioridade e destreza, travestidas de entretenimento e lazer à custa de feras acuadas e outros animais condicionados a se mostrarem ridículos perante o homem divinamente iluminado pela sua pretensa racionalidade. Não são poucas as denúncias de maus-tratos e abandono de animais.
Com algumas exceções, o espetáculo circense ensina a criança a rir da dignidade perdida dos animais enjaulados e acorrentados por seus captores. Nesse caso, a humanização dos bichos igualmente em meios de comunicação, como a TV, reflete claramente a falta de humanidade das pessoas, formando futuros adultos insensíveis à valorização da vida animal.
Felizmente, em 3 de junho deste ano, a Comissão de Educação da Câmara aprovou o Projeto de Lei 7291/2006, que proíbe qualquer tipo de animal em espetáculos de circo no Brasil. A proibição serve para circos nacionais e os internacionais que vierem se apresentar no País. O projeto dá ainda o questionável prazo de oito anos para que os circos se adaptem. O projeto ainda será votado na Comissão de Constituição e Justiça antes de seguir ao plenário da Câmara. Trata-se, mesmo assim, de um grande avanço.
Em se tratando de zoológicos, o paradigma é mais complexo. Hoje não há mais necessidade de se arrancar os animais do habitat e colocá-los em um ambiente antagônico simplesmente para satisfazer a curiosidade humana, alimentando um rendoso comércio e o contrabando ilegal de animais silvestres. Basta ligar a televisão ou a internet para ver e pesquisar sobre um determinado animal. Além disso, os animais agem com naturalidade quando o ser humano é introduzido em seu habitat, desde que estes abdiquem da condição de maiores predadores da mãe Terra.
Assim fazendo, obedecendo obviamente a regras de segurança, crianças podem ser estimuladas a realmente aprender e respeitar o convívio com animais em seu próprio ambiente. Lamentavelmente, o desconhecimento tem feito vítimas nas mãos dos "bem intencionados" que, por ignorância, não sabem que a ingestão de doces e outras guloseimas industrializadas é extremamente prejudicial à saúde dos animais.
Ao final do dia, quando o público sai do Zoológico, os animais, entristecidos, permanecem aprisionados. Que crime cometeram? Recentemente, um grupo de quelônios foi devorado por algum predador solto no Zoológico de Goiânia. Os infelizes animais foram vítimas da sua própria condição de prisioneiros, indefesos e sem condição de fugir ou se esconder, constituíram presa fácil da cadeia alimentar.
O naturismo, por definição, "é um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, que tem por intenção encorajar o autorrespeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente"(INF-FNI, 1974, Definição de Naturismo), se solidarizando com todos os movimentos de preservação e proteção da vida animal.
Laércio Júlio da Silva é diretor da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) e presidente da Associação Goiana de Naturismo – Goiasnat