quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Análises, compreensões e Proposições

As práticas naturistas têm sido muito questionadas neste blog. Isso significa que se torna importante que todos nós repensemos nossas práticas tanto dentro quanto fora do contexto naturista. As reflexões contundentes e as participações ativas nesse espaço contribuem cada vez mais para uma reformulação tranqüila e consciente de atitudes. O primeiro texto publicado pela Ariana despertou-me para começar a contribuir, de alguma maneira, nos projetos engendrados pelo grupo. Além disso, os questionamentos, comentários e observações publicadas levaram-me a um questionamento das terminologias "naturismo" e "peladismo". A primeira sugere concepção ampla de vida, a segunda remete à nudez pura e simplesmente. A segunda, acredito, é a mais praticada devido à correria do cotidiano, pois as pessoas, quando se reúnem, almejam, imediatamente, o lazer. E isso é plausível, é válido e importante para todos. Já a terminologia "naturismo" abarca um conjunto de preceitos e princípios, os quais exigem consciência permanente de integração com o meio ambiente e com os semelhantes. Talvez devido a essa dificuldade de resolver a problemática da falta de tempo para si, nas grandes metrópoles, as pessoas tenham se afastado da noção de naturismo trazida em seu bojo quando foi introduzido, particularmente, no Brasil.

Analisando minhas próprias ações com relação à prática do naturismo, confesso ter-me deparado com a dúvida se sou naturista ou peladista. O Joaquim acha que sou peladista porque gosto de ficar livre de roupas incômodas e porque a nudez em público não me incomoda. Já a Ariana, acha que sou naturista. Trabalhamos juntas em peças de teatro em que eu ficava nua. Talvez isso tenha dado margem a essa discussão sobre minhas ações em torno de tirar ou não a roupa.

Contudo, um alongamento a respeito desse assunto não faz parte de minhas intenções para com esse blog. Pretendo aproveitar esse espaço para abordar o tema da nudez na literatura e no teatro; para postar indicações, resenhas, comentários de peças relacionadas à nudez ou não; tratar de autores cujas obras ou pensamentos se relacionem de alguma maneira com esse debate em torno do naturismo, peladismo, nudismo, etc.; e, sendo estudante de teatro, gostaria de compartilhar idéias sobre a arte dramática! "Salve Baco"

"Nudista pobre é [...] o que não tem o que despir."

(Luis Felipe Angell - Sofocleto - Espanha, [n. 1926], Escritor/Poeta)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

DE PELADISTA PARA NATURISTA


Sabe D. Maria Luiza, com uma queda pelas artes acabei percebendo que certas situações incomodam-me e penso que, se me meti a ser artista, tenho que ser honesta, principalmente, comigo. E me sinto confortável expondo algumas de minhas impressões, sobretudo, a respeito de circunstâncias que envolvam a nudez.

Sempre lidei com a nudez nas artes, sempre tive que trabalhar em cima de sentidos para a nudez, a nudez deslocada pode ou não valer a pena. O interessante de as pessoas exercitarem as artes é que elas começam a dar sentido às coisas, o mais interessante ainda é que elas começam a lutar pela coerência entre suas atitudes e suas teorias ou crenças; entre princípios e procedimentos.

Como o naturismo envolve nudez, disse em outro texto que há oito anos comecei a freqüentar ambientes naturistas, e como disse em outro texto, também, fui buscar no dicionário o significado da palavra naturista. Aí comecei a fazer conexões entre o que é a filosofia ou prática ou modo de vida naturista e o que acontece nos grupos naturistas. Percebi que 99% praticam o peladismo, ou seja, apenas tiram a roupa. Posso contar no dedo a quantidade de pessoas que praticam o naturismo pleno e essas pessoas ainda são motivo de chacota dos demais que só pensam em "comer, comer".

Eu também percebi que o que eu fazia era praticar o peladismo porque eu gosto de ficar pelada para sentir-me mais confortável, percebi que como cidadã, como profissional das artes, como ser humano eu já fazia muitas das coisas que se prega no naturismo sem ter precisado ficar nua, ou sem ter pensado em ficar nua. Eu já praticava a nudez metafórica do naturismo. E como eu disse senti, percebi, vi, ouvi situações que fogem à filosofia, estilo de vida, naturista.

Então concluí: o que esse povo faz é tirar a roupa, o que esse povo faz não e naturismo, o que esse povo faz é tirar a roupa para se divertir, o que esse povo faz é tirar a roupa pensando que está praticando o naturismo quando na verdade está praticando o peladismo, uma outra atividade que pode ou não vir a ser naturismo, além de que é chic ser naturista. Peladista, não. É um termo inferior. Bom, e não haveria problema algum, acho que eu não me incomodaria se assumissem isso. Mas não, transformam a coisa numa espécie de religião a ser seguida com fervor, louvor, como algo do fundo do espírito, da alma, do âmago, sem saber que estão apenas ficando pelados.

Como já disse, e repito, viajei pelo Brasil de norte a sul indo atrás de ambientes naturistas e observando, e dá para contar nos meus cinco dedos da mão direita a quantidade de naturista que encontrei pelo caminho. Talvez a senhora seja a sexta pessoa. E acho que a sétima, a oitava, a nona, a décima, que fazem boas coisas dignas de servirem de exemplo devem descortinar-se, e usar a internet para fortalecer o grupo. Não para transformar a coisa num campo de batalha, mas para expressarem-se e abrir os olhos pro que há por aí. Discutir idéias como a senhora está fazendo, divergindo de mim e mostrando seu ponto de vista. Acho isso maravilhoso. A senhora é uma artista!

Como eu já disse meu negócio é artes, é incomodar-me e incomodar os outros. E decididamente não quero ser naturista enquanto naturismo for "reunir-se num sítio só para comer churrasco" sem se ter consciência de que se está fazendo isso, apenas. Enquanto naturismo for isso, eu sou peladista e não abro.

Bom, D. Maria Luiza, tenho admiração por pessoas como a senhora que defendem seus princípios, defendem uma filosofia como a que prega. Acho extremamente válido divulgar o naturismo para platéias e mais platéias. Parabéns pelo seu trabalho. Eu não sou tão jovenzinha assim, tenho lá meus quarenta e tantos anos e peguei a rabeira da repressão. Entendo perfeitamente o que a senhora diz quando sofreu com a ditadura. A senhora sabe perfeitamente o que significa o cerceamento da liberdade, acusações injustas, prisões quando se é inocente, ameaças, perseguições. A senhora entende mais que muita gente sobre o assunto e com certeza não gostaria de ver isso acontecer novamente. Só que eu lamento dizer que a repressão assume uma roupagem a cada época. Posso começar num passado não muito longínquo que é a Inquisição, que "acabou" por volta de 1820. Acredito que ela não acabou, mas se transformou conforme a época. A ditadura não deixa de ser uma nova roupagem da Inquisição, em que mudaram as personagens, mas a essência permaneceu a mesma. Na nossa época atual, séc. XXI, com a era da tecnologia, da informação, do conhecimento, etc., o cerceamento da liberdade continua gritando para todos. Agora o cerceamento da liberdade, o abuso de poder, a privação de idéias, as perseguições, ameaças veladas, etc., estão escrachadas gritando para as pessoas, ocorrendo às claras. Trata-se do abuso de poder por parte da mídia.

O abuso de poder realizado seja pela mídia ou por sua omissão. A censura pode ocorrer também pela omissão. Também pode acontecer quando ela protege um abuso por parte de alguma autoridade. Acho que Eugênio Bucci é quem diz que quando a mídia e as autoridades se unem "agem como dois moleques: um segura e o outro bate"

A mídia tem sido omissa e às vezes conivente e o problemas é que o povo que não vê isso claramente. O povo fica achando que democracia é só poder votar e/ou falar mal do governo. Para o governo isso é ótimo, porque enquanto se continua a pensar assim, as coisas continuam como estão. Enquanto se reduz a democracia a isso, os "inquisidores" seguem fazendo seu estrago.

Como se pode perceber, a censura manifesta-se de maneiras diferentes a cada época e ela se aproveita inclusive da omissão da maioria que tem conhecimento sobre fatos. E omissão é freqüente em vários grupos inclusive no naturismo oficial brasileiro, o que é lamentável.

Sabe, D. Maria Luiza, nessa minhas andanças observando e praticando naturismo (agora sou peladista), descobri que há uma federação brasileira de naturismo uma FBRN, uma associação brasileira! Gente isso é o máximo, algo muito grande e que pode fazer muito pelo naturismo, isso é importantíssimo para o Brasil. E essa associação possui responsáveis por vários departamentos: tesouraria, diretoria, conselheiros, comissão de ética, os cambau! Gente, comissão de ética!!! Isso é de uma vastidão tão grande que não consigo conceber uma comissão de ética que se omite, uma diretoria que se omite, conselheiros que se omitem, e gente que como a senhora, que sofreram repressão duramente em sua juventude, e essas pessoas, não a senhora, se omitem.

Gente, fiquei sabendo por amigos da imprensa, que sabem de minha maluquice de se envolver com pessoas que tiram a roupa para ser feliz, que está acontecendo um fato gravíssimo dentro da comunidade naturista e que ninguém do naturismo fez e não está fazendo nada! Gente, fiquei sabendo que o presidente, meu deus! o presidente do naturismo no Brasil (nunca vi o cara mais gordo ou mais magro),não sei nem de que planeta ele é, está preso há um ano, sendo acusado, pelo que me pareceu, injustamente, e os naturistas simplesmente deram as costas pra ele, povo cadê a solidariedade! Que vergonha! Ainda bem que sou peladista! Gente, se o cara é culpado ou inocente a justiça que decida, mas dar as costas pro cara! Nem um cartão de natal, nem um chocolate, nem cigarro os naturistas mandam pro cara na cadeia! Cadê todos os naturistas nessas horas!!!! e fiquei mais estupefata ainda quando soube que um jornalista, que não me lembro o nome, foi preso
por estar acreditando que o cara pode ser inocente. Gente!!!! Contaram-me também que muitos naturistas acham que o cara é culpado, já o condenaram e o mandou catar coco nos cárceres do santo ofício. Gente, cadê o respeito ao próximo?????????

Sabe, D. Maria Luiza, me desculpe a exaltação, mas esse caso merece ser jogado aos quatro ventos, isso é censura, a mesma censura que a senhora viveu e que me contou. Só que com outra roupagem. Cadê a liberdade de expressar que se solidariza com o cara do naturismo? Seja ele culpado ou inocente????? Agora, D. Maria Luiza, a senhora me responda. Cadê a liberdade de expressão? Um cara naturista preso há quase um ano sem amigo nenhum, e o que vai manifestar solidariedade, vai preso????Com aplausos de alguns naturistas e com a ausência total dessa tal associação?

Tudo isso é chocante. Precisamos refletir é sobre as atitudes naturistas caladas diante disso. Fiquei sabendo tudo isso por meios exteriores. É mole?!

Sabe, D. Maria Luiza, isso é triste. Os naturistas não são unidos para combinar eventos juntos? Para um churrasco, pizza, esfiha, pipoca, etc.? Não cobram um selinho pras pessoas fazerem parte da associação brasileira? Não tem eventos naturistas internacionais? O Brasil não sediou esse evento esse ano? Eu vi no jornal, fiquei até orgulhosa de ser brasileira, afinal o Brasil por um momento tornou-se o pódio do naturismo mundial. Se não querem que o assunto saia da comunidade naturista para não prejudicar a imagem dos naturistas, hum... tá! Mas não tocar no assunto nem entre os naturistas? E de repente a história vai cair nos jornais? Não fica mais feio a coisa vir de fora pra dentro?

Olha D. Maria Luiza a senhora disse: "[...] para quem cresceu durante os anos da ditadura brasileira, a meu exemplo que tenho 53 anos, sabe o real significado da palavra LIBERDADE (sou do tempo em que a PF "morava" dentro do veículo de comunicação em que eu trabalhava, a TV Gazeta, e tudo que ia ao ar era antes minuciosamente decifrado pelos agentes federais). Pois bem, este triste episódio na vida dos brasileiros já foi o bastante para que aprendessemos que a democracia instalada em nosso país nos restituiu a liberdade, total e irrestrita. Se hoje podemos até falar mal do nossos governantes em público, que dirá dos praticantes do Naturismo!" Aí eu pergunto: Que liberdade?

Aí a senhora mencionou: "[...] o direito de expressão [...]" que direito de expressão? Esse que tenho de colocar minhas idéias num blog? Idéias sem ações não valem nada!!! Eu dizer num blog que os naturistas são glutões não é nada diante desse caso do rapaz preso e do jornalista sendo acusado e a ausência da maior parte da comunidade. Parabéns aos que se manifestam, mas são tão poucos!!!! Coitados, eles precisam de apoio fraternal dos naturistas.


E graças ao universo a senhora diz: "Ainda acredito que a melhor forma de mudarmos as situações são com ATITUDES. Porque uma atitude positiva resulta em boas ações. Podemos, sim, solicitar ajuda a muitos que precisam de nossa ajuda, mas não devemos fazê-lo na forma de crítica, desmerecendo pessoas ou grupos, concorda comigo?" Concordo plenamente, mas o naturismo falhou e está falhando feio ao não ver o que está acontecendo com esse povo preso. Mas ainda dá tempo. Podem começar pelo menos falando sobre o assunto, para escolher pelo menos um cartão de natal pros caras. E se precisar dos peladistas... o blog tá aí!


A senhora mesmo diz: "Vamos utilizar o espaço criado no blog para ensinar, pedir ajuda, enaltecer quem faz, quem contribui, quem ajuda e, quem sabe, outros se sensibilizarão e poderão querer juntar-se à turma dos que já entenderam o real significado da palavra Naturismo."

Essa ajuda inclui interessar-se pelo menos, afetivamente, pelo outro, eu acredito. Ou não?????


Olha, D. Maria Luiza, amei seu e-mail, obrigada pelo e-mail!

A-do-re-iiii! Acho que tocou em pontos que merecem ser refletidos, discutidos. E o blog é um lugar ótimo pra isso. Parabéns pelas suas ações, parabéns pela sua dedicação, parabéns pela garra. Obrigada. O blog está a sua disposição e a disposição de qualquer um que esteja a fim de expor seus pontos de vista suas idéias, ou seja, que esteja disposto a debater idéias.


Acho que Nelson Rodrigues tem razão quando diz que "toda unanimidade é burra."


Até a próxima.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Afinal o que é ser Naturista ou Peladista

Nesse Blog pretende-se pensar na questão da nudez e assuntos relacionados. Mas afinal o que é ser Naturista? Ou ser Peladista?

Cesar Fleury apresentou uma idéia interessante:

"O naturista é alguém interessado no meio ambiente, na natureza, no meio ambiente em que vive, no social.
O que se deseja, é mostrar que se somos naturistas, desejamos algo para a sociedade, e o que seria.....
E se somos apenas peladista, como diz a Ariane, então não precisamos mostrar nada para a sociedade, afinal não desejamos nada, apenas ficar
pelados e pronto."

Dries Hunjan, na lista "Naturistas Cristãos", expressa:

"Na verdade eu também quero ficar pelado em público simplesmente porque isso me agrada. Quanto a querer usar a filosofia nudista para transformar as coisas, isso está por fora. Também está por fora a discriminação que os naturistas fazem contra homens solteiros e desacompanhados. É preciso que vejamos a nudez como algo natural. Olhar para um pênis ou uma vagina de fora deve ser como olhar para um braço ou um rosto. Não há diferença. O corpo humano é um todo e não devemos menosprezar certos membros simplesmente por conta da nossa mentalidade, eu diria, retrógrada."

Sim esse é outro tema importante, recorrente e mal solucionado: homens solteiros. Afinal quem é responsável pela sexualidade e caráter do homem? Ele próprio ou uma mulher que acompanha o homem?

Já Eugenio França ma mesma lista "Naturistas Cristãos", pondera:

"temos que acabar com isso somos acima de tudo pessoas que curtimos andar nu e viver assim nos [não] estamos querendo formar um grupo de naturistas mas um grupo eclético sem descriminação de nada"

Curiosamente no naturismo não deveria existir a descriminação, mas ao que parece isso, infelizmente, não vem ocorrendo.

O lado positivo desta questão é revelar que existe um grande numero de pessoas que querem ficar apenas peladas sem defender nada em especial. Esse grupo merece respeito, é original e autentico. Não precisam de nenhum subterfúgio para justificar a sua preferência.